Mês: setembro 2012

Serpico

Sidney Lumet foi muito mais do que mais um nome do cinema americano. Esteve por mais de seis décadas a frente de clássicos e filmes marcantes na história do cinema. É constantemente lembrado pelo melhor filme de sua carreira (na minha opinião) 12 Homens e uma Sentença 1957, mas mostrou até o último filme produzido, Antes que o Diabo Saiba que Você está Morto 2007, versatilidade e muita vontade de fazer um bom cinema. E não poderia ser diferente com esta bela obra chamada Serpico.

Baseado em fatos reais, o filme conta a história de Frank Serpico, um policial de Nova York honesto e com vontade de sobra em exercer a sua profissão, que acaba encontrando dentro da própria polícia uma rede de corrupção que nunca poderia imaginar.

Além de Lumet na direção, a grande atração desta obra de 1973 é Al Pacino fazendo o papel de Serpico. Filmado entre O Poderoso Chefão I (1972) e II (1974), Pacino encarna o personagem e demonstra na época que viria a se tornar um dos maiores atores de todos os tempos. Praticamente todas as críticas e comentários que li sobre o filme, são reconhecendo a importância da obra na carreira de Lumet (muitos dizendo que é o seu melhor trabalho na direção) tanto quanto na de Al Pacino. O grande destaque de Pacino, é a maturidade de atuação alcançada aqui, com tão pouca experiência. Provavelmente ter passado pelas mãos de Coppola, e toda a provação para ser aceito no papel de Michael Corleone em O Poderoso Chefão, transformaram a cabeça dele. Como muitos sabem, as filmagens de Serpico ocorreram do fim para o começo, com Pacino cortando a barba gradualmente. Mas o mais interessante nisso tudo, é a desconstrução emocional que ele teve que fazer no personagem. O Serpico que começa o filme está ingressando na polícia, recém descobrindo um mundo novo pela frente. O Serpico do fim está confuso e arrasado por dentro, com as esperanças navegando pelos bueiros de Nova York.

Uma grande experiência cinematográfica e um filme que me deu muito gosto de assistir.

Algumas curiosidades do filme:

– Na época das filmagens, Al Pacino residia no mesmo bairro do verdadeiro Frank Serpico, em Nova York.

– Originalmente, Serpico era pra ser estrelado por Paul Newman e Robert Redford, com Redford fazendo o papel de Serpico e Newman no papel do fiel amigo Bob Blair.

– Al Pacino e Sidney Lumet repetiram a parceria dois anos depois no ótimo Um Dia de Cão, de 1975.

– Serpico obteve 2 indicações ao Oscar de 1974. Melhor Ator (Al Pacino) e Melhor Roteiro Adaptado.

Serpico. EUA 1973. 130 min. Direção de Sidney Lumet. Com Al Pacino, John Randolph, Tony Roberts, Jack Kehoe, Biff McGuire.

NC: 8     NP:     IMDB: http://www.imdb.com/title/tt0070666/

Por: Ricardo Lubisco

Papillon

Papillon é o típico filme com uma história grandiosa baseada em fatos reais, que não precisa de um diferencial em sua filmagem para se tornar um excelente filme. Com um roteiro impecável do famoso Dalton Trumbo (escreveu “apenas” os roteiros de “Johnny vai a Guerra” 1971, “Spartacus” 1960, “A Princesa e o Plebeu” 1953), esta obra de 1973 ainda conta com uma atuação primorosa de Steve McQueen (“Bullit” 1968, “Inferno na Torre” 1974 ) no auge da sua carreira, e o sempre bom Dustin Hoffman (“A Primeira Noite de um Homem” 1967, “Perdidos na Noite” 1969).

Existem muitas histórias que cercam a originalidade do livro autobiográfico publicado por Henri Charrière. Após muitas pesquisas foi concluído que o verdadeiro Papillon era Renê Belbenoît. Charrière, um antigo companheiro de prisão da Ilha do Diabo, se apossou dos manuscritos em inglês de Belneboît e contratou um jornalista francês para fazer uma adaptação da obra. A esta altura o verdadeiro Papillon vivia em Roraima e morreu com a sua história vindo a ser conhecida pelo mundo inteiro, como a aventura de outra pessoa.

A história do filme é forte o suficiente para ter se tornado esta tão celebrada obra, mas o que de fato o torna inesquecível é a maravilhosa atuação de McQueen. Pouco se vê hoje em dia nos filmes de Hollywood uma entrega ao personagem com a  intensidade que fica exposta em todos momentos, por este verdadeiro ator. Uma interpretação com garra, que estranhamente não ganhou nenhuma indicação ao Oscar. Aliás, o filme apenas obteve uma única indicação na categoria de Melhor Trilha Sonora Original.

Fora as especificações técnicas, Papillon significou uma visão de outros sentimentos. Em muitos momentos chave da história, o personagem de McQueen confiou cegamente na palavra de outras pessoas. E todas as vezes acabou sendo traído. Isso para mim mostra um sentimento primitivo de muitas pessoas, de terem alguma vantagem em passar alguém para trás. O ódio e a maldade que algumas pessoas carregam ao longo da vida, e que afetam muito mais do que imaginam na vida das outras pessoas. Sentimentos esses que já transformaram o mundo que vivemos em um lugar muito pior. Lugares como a Ilha do Diabo realmente existiram e isto mostra o quanto miserável pode o ser humano ser quando quer. Papillon que o diga.

Papillon. EUA/FRANÇA 1973. 151 min. Direção de Franklin J. Schaffner. Com Steve McQueen, Dustin Hoffman, Don Gordon, Woodrow Parfrey.

NC: 8     NP: 9     IMDB: http://www.imdb.com/title/tt0070511/

Por: Ricardo Lubisco