Matemática da Vitória

Oscar-2013

O ser humano tem essa mania de fazer comparações. Mania não: natureza. Essa vontade de dizer quem é melhor, mais rápido, mais inteligente, mais simpático. E não só para pessoas, mas também para tudo: da lista de ex-namorados às roupas que usa. O cinema, claro, não está isento dessa lógica. E foi com a natureza de elencar favoritos e melhores que surgiu a tal ideia das premiações – eventos que, supostamente, são atestados de qualidade. Ganhou algo? Então é bom. Assim, não é possível negar a importância do Oscar que, apesar das escolhas “erradas”, é referência para muitas pessoas. Mais correto, no entanto, é vê-lo como um balaio de sugestões e não como um guia de qualidade – tendência que ficou bem clara por meio de inúmeros fatores nos últimos anos, especialmente naquele que se refere ao que a Academia se tornou: algo perfeitamente previsível.

É por isso que o Oscar serve apenas como um balaio. Se fosse de fato justo, não estaria sofrendo uma enorme crise que só se agravou nos últimos anos. Difícil dizer onde tudo começou. Influência do poderoso Harvey Weinstein, que investe pesado em propagandas e campanhas para tornar os filmes que distribui vitoriosos? É provável que ele seja apenas um detalhe de toda uma história. Na realidade, ao que parece, a decadência do Oscar vem de um problema muito simples: ninguém vota mais de acordo com seu gosto. Das duas uma: ou o votante se influencia pela mídia ou tenta remendar erros do passado. Nessa lógica, deixa de premiar quem merece.

Se formos considerar os vencedores dos últimos anos, vamos constatar que a última grande surpresa proporcionada pelo Oscar aconteceu em 2006, com a vitória de “Crash – No Limite”, filme responsável por bater o favoritismo de “O Segredo de Brokeback Mountain”. Preconceito? Não. Pelo menos não vejo dessa forma. “Crash” era um filme contemporâneo, sobre o cotidiano dos próprios estadunidenses, que retratava os medos e as paranoias de uma população específica. Creio que votaram com o coração. E a reação dos cinéfilos foi um verdadeiro escândalo. Nesse momento, foi selada a eterna previsibilidade do prêmio que, a partir daí, nunca mais chegou perto de surpreender.

Com o trauma de “Crash”, o Oscar virou uma matemática muito simples: na maioria dos casos, veja quem ganhou mais prêmios na temporada (considerando Globo de Ouro, SAG e BAFTA) e você terá o grande vitorioso. Não foi diferente esse ano com a consagração de “Argo”. Óbvio que o prêmio seria do filme de Ben Affleck. A Academia não se arrisca mais a destoar do coro. E a vitória de Ang Lee como diretor? Ora, com Ben Affleck fora da disputa, o único diretor lembrado em todos os prêmios, sem exceção, era… Ang Lee, que perdia justamente para Ben Affleck (fora de competição no Oscar). Só não via esse favoritismo quem não queria. E eu me incluo nesse grupo.

O Oscar bem que tenta, inventando novas regras que não chegam a lugar algum (a possibilidade de seis indicados ou mais na categoria principal foi um fracasso desde que foi inventada), apresentadores mais moderninhos (Anne Hathaway e James Franco resultaram em desastre!) e atrações irresistíveis para a cerimônia (agora em 2013, os musicais, mal pensados e aleatórios). Entretanto, apesar das tentativas, nada funciona se os vencedores não surpreendem e não dialogam com o merecimento. Já nem cito a exclusão de filmes como “Holy Motors” e “O Mestre” para não entrar em outras discussões, mas a frequência com que o Oscar vem baixando a cabeça para não causar polêmica e tapar buracos tem afundado o prêmio em termos de referência e, muito pior, de audiência.

O prestígio, de certa forma, nunca será perdido: o Oscar sempre será o prêmio mais importante do cinema porque se construiu não apenas como novidade cinematográfica mas também histórica. Veio antes de todos. Esse mérito não pode lhe ser tirado. Assim, não há Globo de Ouro que consiga tirar seu posto. Mas a situação vem piorando… E a magia chegando ao fim. Não em função da festa ser monótona e sim dos prêmios errados que distribui. Talvez o Oscar aconteça tarde demais, quando todos os outros prêmios já escolheram seus vencedores e criaram uma certa obrigação de que tal filme deve vencer o Oscar porque já venceu todas as outras disputas da temporada. É assim que vem funcionando. E é assim que o Oscar, domesticando-se e tentando consertar erros, perde cada vez mais o seu brilho.

 

Vemos o cinema com mente e coração. Não acontece o mesmo com esse prêmio. Uma vez ou outra dá para pular de alegria com a vitória de lendas do cinema, como Meryl Streep, por exemplo. Mas ela própria venceu pelos motivos errados. Por “A Dama de Ferro”, Meryl era de fato, a melhor concorrente, mas sua vitória passou longe de ser exclusivamente em função disso: ela tinha Harvey Weinstein ao seu lado, o Globo de Ouro e o BAFTA em casa pelo papel (voltamos à questão da matemática) e o papel biográfico de transformação física irresistível para os padrões do Oscar. Os elementos mais óbvios da matemática estavam a seu favor. Perdeu a estatueta durante quase 30 anos e foi ganhar logo pelo papel mais previsível em todos os sentidos.

Ao que tudo indica, tal lógica não vai mudar tão cedo. Ficamos na torcida, mas… esqueçamos o Oscar como uma final de campeonato. Ele não nos reserva mais momentos genuinamente encantadores. O jeito é deixar de acreditar em possíveis surpresas. Vamos arregaçar as mangas, colocar fórmulas em prática e ganhar os bolões que perdemos por teimosia. E, sem dúvida, nos vemos no próximo Oscar. Afinal, cinéfilo é bicho teimoso mesmo.

Texto escrito originalmente em março de 2013 por Matheus Pannebecker, jornalista, cinéfilo e autor do blog Cinema & Argumento.

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2 comentários

  1. Concordo com tudo que o Matheus disse, principalmente quando diz que cinéfilo é bicho teimoso. O Oscar pode nos fazer a raiva que for, mas todo ano estaremos ali acompanhando ansiosamente a festa; e por mais que hoje não represente uma grande mudança positiva na vida do vencedor, todos que vencem acabam por dar um verdadeiro valor a ele, pois, querendo ou não, é o principal prêmio da indústria.

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