Mês: agosto 2013

#84 Os Pássaros

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Acredito que a beleza de Os Pássaros, filme do consagrado Alfred Hitchcock, está nos detalhes.

O brilhantismo do diretor fica evidenciado nas cenas de suspense com os corvos. No momento em que vi essas cenas (para bom apreciador, imortalizadas) a vontade que eu tinha era apenas de aplaudir e reverenciar tamanha sutileza em cenas tão delicadas do filme, pois eram elas que iriam fazer este ser um grande ou pequeno filme na carreira do diretor. Pois veja bem, filmar uma história em que pássaros atacam as pessoas sem deixar ele em momento algum colocar uma perninha no trash, é um êxito muito grande.

Os detalhes a que me referi no começo do texto, são as histórias paralelas ao ataque dos pássaros, como por exemplo a excentricidade da personagem principal, principalmente no começo do filme até a metade. Mas uma socialite não agiria de forma diferente a que foi mostrada no filme, não é mesmo? Assim como as características protetoras da mãe do protagonista, tão comuns no começo dos anos sessenta.

E para quem ainda não assistiu ao filme, não fique pensando que este é um filme que mostra um bando de pássaros atacando as pessoas. Ele é muito bem feito, com algumas cenas surpreendentemente fortes para a época, e com algumas das melhores cenas de suspense criadas por um grande cineasta, ou seja: Uma baita experiência.

Vale lembrar que Os Pássaros foi um filme realizado três anos após Hitchcock entrar em um gênero de filme mais voltado para o terror com Psicose (1960), seu filme mais conhecido. E obviamente foi deste filme que surgiu a imagem de um homem gordinho e careca com um pássaro no ombro. Referência eternizada ao filme e ao diretor.

Um clássico imperdível.

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Os Pássaros (The Birds). EUA 1963. 119 min. Direção de Alfred Hitchcock. Roteiro de Daphne Du Maurier (história) e Evan Hunter. Com Tippi Hedren, Suzanne Pleshette, Rod Taylor, Jessica Tandy, Veronica Cartwright.

NC: 8      NP: 9     IMDB: Os Pássaros

Por: Ricardo Lubisco

 

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#83 Noel – Poeta da Vila

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O maior problema para mim em Noel – Poeta da Vila, é a eterna mania de muitos filmes brasileiros, em não diferenciar novela de cinema. Isso geralmente acontece com qualquer coisa produzida pela Globo Filmes, mas pode-se estender para um panorama geral do atual cinema. Se um filme brasileiro não tem o padrão de novela, tem um status europeu, que não é o terreno de um filme nacional.

Acredito que uma cinebiografia de um dos maiores gênios do samba, atingido pela tuberculose e falecido precocemente com apenas 26 anos, merecia um cuidado melhor, evitando essa semelhança com novelas e seriados. Definitivamente, uma das coisas que mais me irrita.

Fiquei tão decepcionado com o filme, que não consigo nem exaltar a atuação de Rafael Raposo, mesmo o jovem ator tendo um tipo esquisitão assim como era Noel.

Acredito que o cinema brasileiro tem alguns flashs de coisas boas, e quando eles surgem é maravilhoso (como o recente O Som ao Redor, 2012). Mas ainda há muito o que melhorar, porque potencial e boas histórias não faltam.

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Noel – Poeta da Vila. Brasil 2006. 99 min. Direção de Ricardo Van Steen. Carlos Didier (Livro), João Máximo (Livro), Pedro Vicente. Com Rafael Raposo, Camila Pitanga, Lidiane Borges, Paulo César Pereio, Supla, Jonathan Haagensen.

NC: 2     NP: 1     IMDB: Noel – Poeta da Vila

Por: Ricardo Lubisco

#82 Chamada de Emergência

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Chamada de Emergência me chamou a atenção pois tinha alguns atrativos bem interessantes. Tem a Halle Berry protagonizando o filme, depois de um bom tempo sem fazer algo expressivo, a eterna pequena miss sunshine Abigail Breslin, e o diretor Brad Anderson já realizou filmes bons, como (O Operário, 2004), aquele filme em que o Christian Bale teve que emagrecer muitos quilos para fazer.

O filme tem um roteiro interessante, e acredito que nas mãos de Joel Schumacher (diretor inicialmente contratado para dirigir o filme) teria rendido um pouco mais. Chamada de Emergência têm uma camada superficial de clichês e com a ajuda de algumas expressões de Halle Berry, que por enquanto não chega a ser a mesma atriz que já foi um dia, vai por água abaixo qualquer expectativa de filme bom. Claro que ele é razoável, e até certo ponto mantém bem o suspense que promete. A parte mais interessante para mim é mostrar de certa forma o trabalho das pessoas que atendem ao 911. O fato de com algumas palavras ser possível salvar ou perder vidas é real e interessante. Mas é algo pouco explorado no filme, deixando espaço para o suspense que em momento algum chega a ser relevante.

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Chamada de Emergência (The Call). EUA 2013. 94 min. Direção de Brad Anderson. Roteiro de Richard D’Ovidio Nicole D’Ovidio, Jon BokenKamp. Com Halle Berry, Abigail Breslin, Morris Chestnut, Michael Eklund, David Otunga, Michael Imperioli.

NC: 4     NP: 5     IMDB: Chamada de Emergência

Por: Ricardo Lubisco

#81 Os Amantes do Círculo Polar

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Os Amantes do Círculo Polar é um dos primeiros longa-metragens do cineasta Julio Medem, e sempre me chamou a atenção pelo título, e por até alguns anos atrás ser encontrado somente em VHS.

Eu já havia ouvido alguns comentários sobre o filme, inclusive me lembro do Eduardo Marques me recomendando ele, e dizendo que assistiu numa maratona de filmes no fim de algum ano. De qualquer maneira, as recomendações ficaram gravadas na minha memória e finalmente assisti o filme.

Extremamente poético e divisor de opiniões, o filme segue uma linha de coincidências que romantiza ao mesmo tempo tanto o destino como os imprevistos da vida. É sem dúvida alguma um bom filme, trabalhado muito bem durante a sua montagem, e que ganhou diversos prêmios em festivais pelo mundo, inclusive no Festival de Gramado.

A história de amor dos personagens principais atravessa algumas décadas e encanta pela maneira como é tratada durante todo o filme, assim como alguns detalhes que constroem a história, como o círculo polar do título. A beleza do filme está justamente na construção dessa história que muitos acreditam ser contemplada de clichês, mas que história de amor não é? Além disso, a maneira poética como a história é tratada, desde os aviões de papel até a explicação do “círculo polar” do título é que faz a diferença. Certamente o filme tem uma agradabilidade muito maior sendo espanhol e distante do que estamos acostumados a ver no cinema americano. Um charme, pode-se dizer.

A certeza é a de que é um belo filme de um ótimo diretor. Os Amantes do Círculo Polar vale todas as recomendações que foram feitas.

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Os Amantes do Círculo Polar (Los Amantes del Circulo Polar). ESP/FRA 1998. 112 min. Direção e Roteiro de Julio Medem. Com Najwa Nimri, Fele Martínez, Nancho Novo, Maru Valdivielso, Peru Medem, Sara Valiente.

NC: 8     NP: 8     IMDB: Os Amantes do Círculo Polar

Por: Ricardo Lubisco

#80 Amor

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Amor é um filme que segue genuinamente a maneira com que Michael Haneke, um dos meus diretores preferidos (por muitas razões que deixarei para explicar em outro momento), desenvolve a maioria das histórias de seus filmes: De uma maneira muito direta e sem sentimentalismo barato. Uma das grandes qualidades do diretor austríaco. Fico imaginando este filme sendo realizado em Hollywood e todos os Oscar que ele teria ganho se fosse americano.

Pode parecer um comentário um pouco ríspido de início, mas não há como pensar em Amor não vencendo os prêmios que disputou no Oscar, e principalmente perdendo para Argo na categoria de Melhor Filme e Emmanuelle Riva não recebendo o prêmio de Melhor Atriz. É uma piada este ainda ser considerado o maior prêmio do cinema mundial, sendo que ele reconhece em quase sua totalidade somente o cinema americano. É uma visão do absurdo, e tomei a decisão de nunca mais levar o Oscar a sério, assim como nunca mais irei escrever algo sobre as cerimônias de premiação.

O filme segue uma linha realista muito particular e que Haneke construiu durante toda a sua carreira. Muitos começaram a acompanhar seus filmes devido ao enorme sucesso de Caché (2005), um de seus grandes filmes de impacto visual, que contém uma das cenas mais perturbadoras do cinema, mas eu recomendo as pessoas à assistirem o primeiro longa-metragem do diretor, O Sétimo Continente (1989). Este filme é tão realista e impactante quanto Amor, e é um exemplo do cinema que Haneke realizou durante todos estes anos até agora. Ele é um diretor que nunca se deixou levar pela emoção de realizar um drama comovente apenas para ser aplaudido pela crítica.

As atuações de Jean-Louis Trintignant (Haneke escreveu o papel para ele) e Emmanuelle Riva são esplêndidas. O que estes dois atores fizeram em cena nesse filme é um incrível trabalho de dois enormes talentos do cinema, eternizando para sempre a imagem de suas atuações em uma idade muito avançada. O reconhecimento pela atuação é ainda maior pelo filme retratar exatamente esta situação: a velhice. Mas não apenas a velhice, como também a proximidade da morte, e o amor que nos resta quando estamos no momento mais difícil da vida.

Amor tem tantas belas cenas, que a verdadeira impressão do filme é o sentimento que ele deixou em mim. Como bem explica o personagem de Trintignant em uma certa parte do filme, depois de um tempo lembramos de poucas cenas dos filmes, de apenas alguns detalhes da história, mas o sentimento que temos ao pensar no filme é único. E este é um desses filmes. Pela construção (ou desconstrução) da história, pelos momentos apresentados (reais ou surreais), e pelas expressões magníficas desses atores que tanto me marcaram.

De qualquer maneira, palavras não traduzem a beleza artística e sentimental que Amor é capaz de produzir. A obra-prima de um mestre.

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Amor (AMOUR). FRA/ALE/AUT 2012. 127 min. Direção e Roteiro de Michael Haneke. Com Jean-Louis Trintignant, Emmanuelle Riva, Isabelle Huppert, Alexandre Tharaud.

NC: 10     NP: 10     IMDB: Amor

Por: Ricardo Lubisco

#79 Um Lugar Qualquer

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É preciso deixar a regra de que sempre estamos esperando algo que nos surpreenda nos filmes de lado. Há muito tempo que escuto as pessoas falando “mas eu fiquei todo o tempo esperando algo acontecer, e o filme acabou sem mais nem menos”, frase que me deixa uma dúvida na cabeça: o que as pessoas realmente esperam de um filme quando o assistem? Certamente uma grande história, algo memorável. Mas existem filmes que são apenas filmes, e não obras-primas. Filmes que fazem apenas um relato visual de alguma situação, de alguma história sem começo, meio e fim. Pode-se dizer que Um Lugar Qualquer de Sofia Coppola está entre estes filmes, que transitam entre uma cena e outra sem dizer muito a que vieram, chatos em certos momentos, mas que tem um visual marcante e belo.

Sofia que será eternamente lembrada pelo seu melhor trabalho no cinema com Encontros e Desencontros (2003), ápice de criatividade da diretora, realiza aqui um trabalho justo às suas perspectivas, com ótimos ângulos e uma bela fotografia (como sempre), assim como uma trilha-sonora muito agradável, mas isso não é o suficiente para fazer de Um Lugar Qualquer um bom filme. Me parece que ela se superestimou um pouco, deixando as suas características guiarem um filme sem um roteiro bem trabalhado, que deixa por vezes o filme alongado demais em algumas cenas e sem parecer convincente, até porque já havíamos visto este universo que a diretora apresenta aqui em Encontros e Desencontros, apenas de uma maneira diferente.

Um Lugar Qualquer se sustenta pela beleza que Sofia coloca na maioria das cenas, uma característica natural dela. Mas fica devendo muito, vindo de uma pessoa que eu absolutamente esperava mais. Talvez esse algo a mais venha no seu próximo filme, talvez não. Qualidade eu sei que ela tem.

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Um Lugar Qualquer (Somewhere). EUA/ITA/JAP/UK 2010. 97 min. Direção e Roteiro de Sofia Coppola. Com Stephen Dorff, Chris Pontius, Elle Fanning.

NC: 5     NP: 6     IMDB: Um Lugar Qualquer

Por: Ricardo Lubisco

#78 Oblivion

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De todas as críticas que li sobre Oblivion, nenhuma me chamou realmente a atenção dizendo algo relevante. A maioria apontava problemas de ritmo (por que as pessoas tem tantos problemas com filmes longos?), falta de originalidade, entre outras coisas. Uma maneira errada de ver e entender o filme.

A minha opinião é de que Oblivion é um filmão.

A história criada e dirigida por Joseph Kosinski, novato no mundo cinematográfico, tendo como única referência a direção de Tron: O Legado, é uma ótima ficção científica como há tempos não via. Com certeza, em diversos momentos, o que vemos na tela são características de outros grandes filmes de ficção, como não poderia ser diferente. Tirando uma referência exagerada à 2001- Uma Odisséia no Espaço na história, ainda assim, o filme têm vida própria. E apesar de eu particularmente estar cansado de ver Tom Cruise salvador da pátria, ele é uma peça fundamental que faz o filme funcionar. Assim como a bela participação de Olga Kurylenko.

Não vou citar as cenas aqui para não estragar qualquer surpresa (quem me conhece sabe que sou extremamente contra os trailers, sinopses e críticas que revelam a história, mania que herdei do meu amigo Jacson Soares), mas na maioria do tempo o filme segue sem problemas. A meu ver, a parte final do filme faz ele decair um pouco. Tem furos de roteiro e mais algumas cenas desnecessárias que fazem o filme descer alguns degraus do topo que conseguiu manter em muitos momentos.

Uma coisa em particular que gostei muito foi o surgimento do personagem de Morgan Freeman em cena, extremamente imponente e o transformando em um dos melhores momentos do filme. Uma pena que o personagem não tenha sido suficientemente explorado, o que faria o filme ganhar muito em questão de história.

Apesar de alguns detalhes que fazem toda a diferença para o filme não ser maior, Oblivion é um trabalho que merece reconhecimento, trazendo um novo fôlego para todos que gostam de ver um bom filme de ficção/ação. Com certeza, é um dos bons filmes realizados neste ano, com destaque para Joseph Kosinski, de quem podemos esperar algo muito bom no futuro. A parte visual do filme é impecável, assim como o trabalho sonoro, que cria todo o ambiente de tensão no filme. Ah, e tem Led Zeppelin na trilha-sonora.

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Oblivion. EUA 2013. 124 MIN. Direção de Joseph Kosinski. Roteiro de Karl Gajdusek, Michael Arndt, Joseph Kosinski (graphic novel). Com Tom Cruise, Morgan Freeman, Olga Kurylenko, Andrea Riseborough, Melissa Leo, Nicolaj Coster – Waldau.

NC: 7     NP: 7     IMDB: Oblivion

Por: Ricardo Lubisco