Mês: janeiro 2014

Questão de Tempo

About Time father son

Richard Curtis é um cara que mantém um nível muito alto como diretor. Até agora pelo menos ele não realizou nenhum filme ruim, e a cada trabalho tenho a percepção que ele nasceu para contar histórias, pois faz isso de uma maneira muito boa e natural.

Questão de Tempo é uma história muito bem escrita, e não é fácil escrever sobre viagens no tempo e manter a relatividade disto na história sem se perder. Muito pelo contrário, Curtis faz uso de toda essa liberdade para transformar uma história que à primeira vista pode parecer apenas um simples romance, em um grande conto sobre vida e família. Para muitas pessoas que como eu pensavam que seria praticamente impossível que ele criasse algo tão bom quanto Simplesmente Amor (2003), Questão de Tempo é uma grata surpresa, e provavelmente o melhor filme da carreira deste neozelandês.

Muitos irão dizer que faltaram explicações para as viagens no tempo, mas a questão principal do filme não é detalhar e explicar isso para o público. É apenas um artifício que o diretor têm para incrementar a história e torná-la mais interessante. O amor à vida que muitas vezes deixamos de lado pela rotina do dia-a-dia é representada não só na vida pessoal do personagem principal, mas principalmente na sua relação com o pai, o que é sensacional. O personagem de Bill Nighy é absolutamente brilhante e é o que realmente faz diferença na obra. São muitos bons momentos construídos por ele e por Domhnall Gleeson (personagem principal) que as suas cenas são indiscutivelmente preciosas.

Fora algumas bobagens que poderiam ter sido retiradas do corte final (a parte do metrô com o casal e os músicos é uma delas), temos aqui certamente um dos melhores filmes do ano passado. Vale muito a pena separar um tempo para ver esse filme, e por mais ingênuo que ele possa parecer, tem uma profundidade do tamanho da vida. Uma grande história.

about_time

Questão de Tempo (About Time). UK 2013. 123 min. Direção e Roteiro de Richard Curtis. Com Domhnall Gleeson, Rachel McAdams, Bill Nighy, Lindsay Duncan, Lydia Wilson.

NC: 8     NP: 8     IMDB: Questão de Tempo

Por: Ricardo Lubisco

Anúncios

Ela

Her-Movie-siri-operating-system-ftr

Como todos os outros trabalhos dirigidos por Spike Jonze, Ela não é um filme convencional e não irá agradar a todos, mas têm em sua essência uma inteligência  e criatividade absurda, fatores que o tornam uma experiência muito interessante de se assistir.

Dando uma passeada pelos sites de críticas de fora do Brasil (em outros países o filme já está em cartaz), é unânime  a qualidade do filme e a maneira com que o diretor construiu uma história intensa sobre um futuro não tão distante. O mais impressionante para mim a abordagem que Jonze fez de tantos assuntos, todos conectados com a história principal. A solidão do personagem em um mundo aonde todos estão conectados o tempo inteiro em um mundo virtual, metáfora indiscutível dos dias de hoje, aonde ao pegarmos um ônibus ou metrô vemos 90% das pessoas com seus fones de ouvido conectados ao Facebook ou qualquer outra rede social. O diferencial do filme é a maneira como o diretor constrói essa história futurística, dando humanidade a tecnologia na personagem de Scarlett Johansson, que participa somente com sua voz e dá vida ao programa de computador.

É meio complicado escrever sobre um filme complexo como Ela, mas vamos lá. O visual do filme é incrível, cada detalhe no set parece ter sido arrumado e organizado para ser esteticamente perfeito, assim como a vivacidade das cores. A trilha-sonora ficou sobre responsabilidade do Arcade Fire, e tem belíssimos temas no piano, além de uma canção do grupo The Breeders, o que particularmente me deixou muito contente. Há também aquele tipo de “canção mela cueca” tão utilizada nos filmes moderninhos de hoje em dia, com ukelele e uma voz infantil. É bonita sim, mas a forma constante com que esse tipo de música é usada em “filmes bonitinhos” dá um certo asco.

Mas vale lembrar que nada disso seria possível sem a presença de Joaquin Phoenix. Um dos maiores atores americanos da atualidade ao lado de uns dois ou três, mas certamente, o mais versátil. O seu trabalho em Ela é de uma grandiosidade absurda, sendo que ele contracenou praticamente sozinho o tempo inteiro. Joaquin Phoenix é um verdadeiro camaleão, interpretando na mesma densidade papéis tão diferentes, fazendo uma rápida comparação de Ela com O Mestre. Phoenix é a alma do filme.

Spike Jonze criou e dirigiu um dos filmes mais interessantes para se assistir este ano, que tem em sua força certamente a história, estranha e bonita ao mesmo tempo. A relação do personagem principal com o programa de computador é tão natural quanto uma relação pessoal normal. Não é uma obra tão ficcional assim, porque no fim das contas todos nós procuramos algo que complete os espaços vazios nos nossos dias. É um filme de um homem só, sobre solidão e amor, amor e solidão, inteligência artificial e amor, solidão, amor artificial…

*Spike Jonze recentemente venceu o Globo de Ouro de Melhor Roteiro por este filme.

*A primeira vez que você mexer no seu celular logo após assistir o filme o fará se sentir muito estranho.

her1

Ela (Her). EUA 2013. 126 min. Direção e Roteiro de Spike Jonze. Com Joaquin Phoenix, Rooney Mara, Scarlett Johansson, Amy Adams.

NC: 9     NP: 7     IMDB: Ela

Por: Ricardo Lubisco

Homenagem ao Cine Revista – 11 Anos Online!

cinerevista

Adriano de Oliveira é um cinéfilo convicto. Me lembro que o conheci em alguma tarde de 2008, trabalhando na locadora Espaço Vídeo, aqui em Porto Alegre. Aliás, se tirei proveito de algo neste trabalho foi a companhia, amizade e conversa com diversas pessoas que sentem a mesma atração que eu pelo cinema. Adriano, figura muito cativante, logo me proporcionou os melhores papos e piadas sobre cinema que eu teria naquele lugar. Amizade esta que se estendeu por esses 6 anos entre contribuições solidárias (o apoio fundamental na reabertura da sala de cinema Norberto Lubisco), participações minhas no Cine Revista em algumas listas, e uma participação mais do que especial do Adriano aqui no blog (confira a excelente crítica sobre um dos filmes mais inovadores do cinema A Paixão de Joana d’Arc). 

Com mais de uma década disponibilizando ensaios, críticas, listas e informações sobre cinema no Cine Revista, Adriano chega à 10ª edição das Listas de Melhores e Piores Filmes do Ano. Um feito notável neste mundo tão inconstante da internet, em que sites e blogs desaparecem tão rápido quanto aparecem. E a história do Cine Revista pode ser comparada a de um diretor autoral, que sem grandes produtores, realiza a sua obra-prima no dia-a-dia, e na paixão de viver trabalhando com cinema.

Vida longa ao Cine Revista, e a todos que como o Adriano, mantém este fascínio pelo cinema escrito pelas loucas páginas da internet.

Abaixo, o link para a 10ª Edição das Listas, e um baita especial realizado pelo site com os melhores filmes da década passada:

10ª Edição Listas do Ano

Os Melhores Filmes da Década:

– Alexandre Mesquita – Lista

– Adriano de Oliveira – Lista

– Luiz Santiago – Lista

– João Pedro Fleck – Lista

– Adriana Androvandi – Lista

– Ricardo Rangel – Lista

– Miguel Maineri – Lista

– Ricardo Lubisco – Lista

Carrie – A Estranha

Carrie 2013 Chlow Moretz in blood movie still

Quando faltam idéias e é preciso ganhar algum dinheiro, Hollywood sempre aparece com algum remake desnecessário e desta vez o filme escolhido foi Carrie – A Estranha.

A clássica história de Stephen King já havia sido adaptada para o cinema por Brian de Palma, em um filme surpreendente pela maneira com que dialogava com o público mostrando não só a opressão, como a transformação hormonal vivida por Carrie. Como bem disse Ricardo Calil na crítica do filme para o jornal Folha de São Paulo: “Como o público médio diminuiu de idade, Hollywood acredita que é preciso infantilizar seus produtos. E, por isso, temos aqui uma adaptação mais didática, explícita e excessiva“.

O remake do filme perde total sentido a partir do momento em que Chloë Grace Moretz entra em cena fazendo caras e bocas como se estivesse atuando ao lado de Kristen Stewart em Crepúsculo (2008), e desencorporando a naturalidade com que as coisas acontecem no filme para a personagem. Atuações de um modo geral excessivamente rasas, incluindo Julianne Moore, a qual estou tentando entender o seu motivo de participação no filme até agora.

Se procurarmos algum sentido na readaptação do filme para os dias de hoje, ele não existe, até porque um filme não deve ser adaptado, pois ele é uma obra atemporal. Neste filme não vemos a possível adaptação, sendo que as falas por vezes são repetidas linha por linha. A história rumando para as mesmas cenas. As cenas sim, adaptadas para a tecnologia disponível nos dias de hoje, mas nem essa própria tecnologia (inexistente em 1976) salva a obra de uma realização medíocre.

Acho que antes de se pensar em realizar um filme, antes de querer readaptar uma história, é preciso respeitar o que já foi feito no cinema. Antes de tudo isso ainda, é preciso respeitar o cinema e a sua história de evolução até aqui. Pois sempre que um remake é realizado, tenho uma forte sensação de que estamos regredindo de forma descontrolada.

carrie_ver6

 

Carrie – A Estranha (Carrie). EUA 2013. 100 min. Direção de Kimberly Peirce. Roteiro de Lawrence D. Cohen, Roberto Aguirre – Sacasa, Stephen King (romance). Com Chloë Grace Moretz, Julianne Moore, Gabriella Wilde, Portia Doubleday, Alex Russel.

NC: 3     NP: 1     IMDB: Carrie – A Estranha

Por: Ricardo Lubisco

 

Rush: No Limite da Emoção

Rush-Movie-Niki-Lauda

Ron Howard faz uso de toda a sua experiência em direção para tornar Rush: No Limite da Emoção um retrato fiel da histórica rivalidade entre o austríaco Niki Lauda contra o inglês James Hunt, no campeonato mundial de Fórmula 1 do ano de 1976. Com um ousado e diferente estilo de filmagem adotado, Rush não só é um grande filme, mas um dos longas mais intensos apresentados no cinema nesse ano de 2013.

A história de Rush por si só já é interessante, mas nas mãos de uma equipe comum com certeza não teria o mesmo resultado. Além de Howard na direção, o compositor consagrado Hans Zimmer foi o responsável pela trilha-sonora, e o bom roteirista Peter Morgan – que durante toda a composição foi acompanhado por Niki Lauda – ajudaram a tornar este filme um dos melhores já realizados sobre automobilismo, pois o enfoque principal nunca é a vida pessoal dos pilotos, e sim especificamente a personalidade, rivalidade, e convivência de um com o outro. Some a isso uma grande interpretação de Daniel Brühl, que desde Adeus, Lênin (2003) vem demonstrando um talento absurdo, e uma semelhança física incrível de Chris Hemsworth com James Hunt.

Fora todos esses detalhes que já ajudariam o filme a ser bem-sucedido, o diretor de fotografia Anthony Dod Mantle (Festa de Família, Dogville, Extermínio) foi escalado, e adicionou elementos que tornaram o filme muito mais interessante. A fotografia do filme adiciona tons da época na filmagem mesclados com tecnologia digital, criando um efeito surpreendente e inovador.

O que posso dizer é que é um filme tremendamente inspirante, ainda mais para quem não vivenciou esses anos de Fórmula 1. Mesmo quem não é tão fã assim do esporte tem poucos motivos para não gostar, pois Rush não se limita a ser um filme sobre automobilismo, mas um grande filme sobre uma grande história. Em mim provocou diversos sentimentos, entre eles ler a biografia dos pilotos, assistir os vídeos das corridas da época, e como um bom brasileiro sentimentalista, assistir novamente às melhores corridas do eterno Ayrton Senna.

rush

 

Rush: No Limite da Emoção (Rush). EUA/ALE/UK 2013. 123 min. Direção de Ron Howard. Roteiro de Peter Morgan. Com Daniel Brühl, Chris Hemsworth, Olivia Wilde, Pierfrancesco Favino.

NC: 8     NP: 8     IMDB: Rush: No Limite da Emoção

Por: Ricardo Lubisco

 

 

A Vida Secreta de Walter Mitty

Ben Stiller in a still from The Secret Life of Walter Mitty

Me lembro quando o trailer de A Vida Secreta de Walter Mitty foi lançado e circularam rumores pela internet dizendo que Ben Stiller poderia ganhar um Oscar pela atuação e direção do filme. Fica nítido hoje, após assistir ao filme, que estes comentários foram muito equivocados. Porém, A Vida Secreta de Walter Mitty me surpreendeu de uma maneira que eu não esperava, após a morna recepção da crítica cinematográfica.

Em nenhum momento do filme Ben Stiller foge do tipo de  interpretação que o caracterizou no cinema, e não realiza um filme sério para provar que pode realizar outros feitos no cinema além das comédias a que estamos acostumados a vê-lo atuar. O ator continua o mesmo, mas a história clama por algo fora do universo convencional do ator, que abraça o personagem e dirige a si mesmo de uma forma muito competente, realizando um filme maduro o suficiente para intercalar bons momentos engraçados e uma seriedade necessária para tirar o filme do comum e banal. As partes divertidas do filme são muito bem encaixadas na história (tirando uma cena extremamente sem sentido e sem graça com referência à O Curioso Caso de Benjamin Button), e é impossível não dar risadas audíveis em alguns momentos aproveitados com sabedoria na história (o piripaque do Chaves que faz o personagem de Ben Stiller “sonhar acordado” é um bom exemplo disso).

O que faz  A Vida Secreta de Walter Mitty ser um filme acima da linha do comum? As belas cenas que nos são apresentadas a partir da metade do filme, assim como o timing certo para a trilha-sonora ser coadjuvante com o que assistimos. É impossível tirar a bela e clássica Space Oddity de David Bowie da cabeça após assistir ao filme, pois ela é tocada em um momento chave da história, assim como os personagens bem apresentados, cada qual com o seu grau de importância na trama. Outro destaque é a participação de Sean Penn, que engrandece a história com um dos melhores momentos do filme.

Tive uma grata surpresa ao terminar a sessão e continuar pensando no filme e no que exatamente me fazia ainda estar preso ao que eu tinha acabado de assistir. E é impossível não ser cativado por uma história que te faz pensar na vida comum que levamos no dia-a-dia, o que era exatamente o propósito do filme. Mostrar que existe algo muito maior que essa rotina que seguimos. E nesse ponto A Vida Secreta de Walter Mitty é muito competente. Para mim Ben Stiller é responsável pelo bom filme, pois não acho que ele tentou forçar uma atuação maior do que a que poderia realizar. É um bom momento de sua carreira, que soma aos seus trabalhos de direção mais um filme bem realizado.

Na minha sessão, a maioria das pessoas permaneceu sentada após o filme, durante os minutos iniciais dos créditos com a atenção presa a tela aguardando aquele algo a mais que poderia vir ou não. Pode não significar grande coisa, mas para mim é a evidência da qualidade do filme.

Curiosidades:

– O filme passou por muitas mãos até chegar a Ben Stiller. De Steven Spielberg à Ron Howard.

– É baseado em um conto de James Thurber.

– Há uma versão cinematográfica da história de 1947. O Homem de 8 Vidas é dirigido por Norman Z. McLeod e protagonizado por Danny Kaye.

secret_life_of_walter_mitty_ver8

A Vida Secreta de Walter Mitty ( The Secret Life of Walter Mitty). EUA 2013. 114 min. Direção de Ben Stiller. Roteiro de Steve Conrad e James Thurber (História). Com Ben Stiller, Kristen Wiig, Jon Daly, Adam Scott, Sean Penn, Shirley MacLaine.

NC: 7     NP: 7     IMDB: A Vida Secreta de Walter Mitty

Por: Ricardo Lubisco

Jackass Apresenta: Vovô Sem Vergonha

Film_Review-Bad_Grandpa-0531c

Levar ao cinema uma boa idéia de programa de televisão não é um bom negócio, pelo menos se tratando de Jackass.

Vovô Sem Vergonha repete a fórmula dos filmes anteriores da trupe Jackass, apenas com uma pequena diferença, que é tentar mesclar as inusitadas situações que o Vovô protagoniza com pessoas normais e câmeras escondidas, com uma ficção barata por trás. E essa ficção aqui não funciona. É difícil pensar em como Vovô pode ter feito uma boa bilheteria no cinema, sendo que de cinematográfico não tem nada. É a transposição para as grandes telas de um programa de televisão, que se tivesse sido realizado para este formato, seria muito mais eficiente.

Spike Jonze como um dos criadores do seriado assina o roteiro como já havia feito nos filmes anteriores, mas novamente não é possível ver a sua mão no longa. É apenas mais um nome na produção, que ganha destaque com a boa trilha-sonora e com a atuação de Johnny Knoxville, mais uma vez demonstrando um carisma notável em frente as câmeras, mas que infelizmente não é o suficiente para fazer com que Vovô seja um bom filme. Quem quer que seja que teve a idéia de levar essa produção para os cinemas, tem uma percepção distorcida do que realmente vale a pena categorizar como um filme e chamá-lo como tal.

Assista em casa se tiver um tempinho livre, mas só se você realmente não tiver mais nada para assistir.

bad_grandpa_ver2

 

Jackass Apresenta:Vovô Sem Vergonha  (Jackass Presents: Bad Grandpa). EUA 2013. 92 min. Direção de Jeff Tremaine. Roteiro de Johnny Knoxville, Spike Jonze, Fax Bahr, Adam Small. Com Johnny Knoxville, Jackson Nicoll, Greg Harris.

NC: 3     NP:    IMDB: Vovô Sem Vergonha

Por: Ricardo Lubisco