Mês: fevereiro 2014

12 Anos de Escravidão

12-years-a-slave-trailer

Foi com o intuito de assistir aos principais filmes indicados ao Oscar, premiação norte americana que acontece neste domingo, que separei um tempo para prestigiar 12 Anos de Escravidão. O curioso é que no começo do filme eu fui rapidamente enganado (não costumo ler sinopses e nem críticas antes de assistir algo) imaginando que estava prestes a assistir um dramalhão construído basicamente para colecionar as famosas estatuetas douradas, devido a trilha-sonora (o excelente tema do filme composto por Hans Zimmer) emocional executada logo no princípio da história. Mas bastaram apenas alguns minutos para eu ver que estava prestes a assistir uma obra visualmente impressionante e extremamente bem realizada.

Escravidão é um tema muito delicado de se tocar em qualquer discussão e mostrar imagens reproduzindo aqueles tempos é mais delicado ainda de se assistir. No meu caso, fiquei imaginando se eu estivesse passando por aquela experiência não teria a paciência e força necessária para aguentar o que estas pessoas passaram, incluindo Solomon Northup, personagem principal deste filme que é baseado em sua história de vida, escrita por ele em 1853.

Surpreendente foi a brilhante condução que Steve McQueen (Shame), diretor relativamente novo, manteve durante a construção do filme e nas interpretações que conseguiu extrair de seu elenco. A fotografia do filme tem momentos sublimes, enquanto a trilha-sonora de Hans Zimmer não nos deixa esquecer, mesmo em uma belíssima cena em que árvores cortam um céu azul em um fim de tarde, os tensos dias de escravidão que estão sendo representados. É assim o tempo inteiro. Uma realidade crua que insiste em permanecer ativa e pulsante em todos os momentos, tal qual  aquelas pessoas sofreram, mas deixando de pender para um drama excessivo, fácil armadilha em filmes de biografia. A atuação de Chiwetel Ejiofor (que recentemente ganhou o Bafta de Melhor Ator por sua intensa interpretação neste filme) é ótima e ponderada. Ele demonstra muito bem a raiva que o personagem guarda por toda a injustiça que vive, e a desconta nos devidos momentos, em explosões de temperamento muito bem registradas. O elenco conta ainda com a ótima Lupita Nyong’o, Michael Fassbender (que participou de todos os três longa-metragens do diretor), Paul Dano, Brad Pitt, Paul Giamatti e Benedict Cumberbatch.

Minha consideração final é a de que 12 Anos de Escravidão é um filme que surpreende por sua profunda imersão no tema e nas dores da escravidão, mantendo seu ar épico do começo ao fim, tornando-o um filme equilibrado e muito bem realizado. Dos que assisti até agora, é um dos meus favoritos para vencer o Oscar.

twelve_years_a_slave

12 Anos de Escravidão (12 Years a Slave). EUA/UK 2013. 134 min. Direção de Steve McQueen. Roteiro de Solomon Northup (autobiografia) e John Ridley. Com Chiwetel Ejiofor, Lupita Nyong’o, Michael Fassbender, Paul Dano, Brad Pitt, Paul Giamatti, Benedict Cumberbatch.

NC: 9     NP: 8     IMDB: 12 Anos de Escravidão

Por: Ricardo Lubisco

Cotação dos Críticos:

Pablo Villaça (Cinema em Cena♠♠♠♠♠

Érico Borgo (Omelete♠♠♠♠♠

Lucas Salgado (Adoro Cinema♠♠♠♠½

Michel Simões (Toca do Cinéfilo♠♠♠♠

Harold Ramis

Ghostbusters-Bill-Murray-Dan-Aykroyd-Harold-Ramis-1920x2560Que começo de ano sombrio para o cinema em geral, não? Quem faleceu na data de hoje foi este ator no centro da foto, Harold Ramis, conhecido pelo seu papel em Caça Fantasmas (1984). O que poucas pessoas sabem é que foi ele que dirigiu o ótimo Férias Frustradas (1983), Feitiço do Tempo (1993) e Máfia no Divã (1999), entre outros bons filmes. Sem dúvida, comédias que eu acompanhei durante a adolescência e sou muito grato a elas pelos momentos de diversão. Feitiço do Tempo é o mais marcante deles, pois é impossível esquecer do dia da marmota e de Bill Murray repetindo o mesmo dia milhares de vezes.

Muito obrigado, Harold.

Um Anjo em Minha Mesa

AN-ANGEL-AT-MY-TABLE

A diretora neozelandesa Jane Campion é reconhecida por ter realizado o premiado filme O Piano (1993), mas é contando a história autobiográfica da escritora Janet Frame que ela realizou sua pequena obra-prima.

Um Anjo em Minha Mesa mantém desdo o início, uma maneira bem intensa de nos contar a história de Janet e o seu jeito de ser, extremamente bem interpretado por três atrizes diferentes, em sua infância, adolescência e fase adulta. É um filme tão poético quanto a personagem, e isso é realçado a todo momento pela fotografia e maneira com que a diretora realizava as cenas, sempre com uma beleza gritante, seja em corredores da Universidade, no interior da Nova Zelândia, ou em um quarto de hotel na França. O ambiente é diferente, mas a beleza da cena é a mesma.

O filme que é dividido em três capítulos – baseado nos três livros autobiográficos de Frame – é um retrato fiel da escritora, e não imagino ela melhor retratada do que aqui. Depois de tantos detalhes apresentados nos longos 158 minutos, o que fica de mais marcante são os cabelos desengonçados (e ao mesmo tempo brilhantemente naturais) e a maneira com que a personagem leva a vida e enfrenta as dificuldades, ou, a beleza que ela consegue encontrar em seus pequenos prazeres (a maioria escrevendo seus poemas e histórias). Campion realiza aqui um dos mais belos filmes desta década tão viva para o cinema como foram os anos 90.

Tão belo quanto a maneira como foi realizado, contando apenas os fatos da vida de Frame, e não apelando para uma dramatização exagerada, armadilha tão fácil no cinema, como diz Paulo Menezes no livro Cinema dos Anos 90 (Denilson Lopes, Ed Argos):

“Ao construir essa narrativa quente e sem dramas, Jane Campion nos proporciona um mergulho amoral dentro da alma de Janet Frame, de uma nova sensibilidade afetiva, muito mais profundo do que seria se a sua dramaticidade tivesse se tornado o toque de caixa de todo o filme. Ao apresentar para nós a história relativamente isenta de avaliações, pelos olhos atenuantes de Frame, Campion por outro lado nos permite um profundo mergulho na avaliação que nós mesmos fazemos do mundo que criamos e que nos cerca, o qual a vida de Janet Frame permite de maneira exacerbada experimentar  nos seus mais cruéis e delicados interstícios.”

É interessante saber que Campion conheceu a escritora durante a sua produção para o que inicialmente seria uma série de TV, mas que acabou se tornando um filme, e disputando prêmios em festivais. Mais interessante ainda é saber que nesses encontros de Jane com a escritora, todo o universo muito particular descrito foi visitado, e que a doçura de Frame é tão marcante quanto a que vemos no filme. Certamente um espírito aventureiro e livre das relações sociais obrigatórias ao cidadão comum. Uma pessoa única.

angel_at_my_table

Um Anjo em Minha Mesa (An Angel at my Table). NZ/AST/UK 1990. 158 min. Direção de Jane Campion. Roteiro de Janet Frame (autobiografia) e Laura Jones. Com Kerry Fox, Kevin J. Wilson, Iris Churn.

NC: 10     NP: 10     IMDB: Um Anjo em Minha Mesa

Por: Ricardo Lubisco

 

Clube de Compras Dallas

Film-Toronto Preview

Posso afirmar que mesmo com uma certa expectativa gerada por todas as indicações à prêmios que recebeu, Clube de Compras Dallas não deixa de ser surpreendente em momento algum. Matthew McConaughey abraça o seu personagem e é grandioso em todos os momentos, dividindo a atenção com Jared Leto, que após cinco anos voltou a atuar em um filme (sua última aparição havia sido no excelente Mr. Nobody de 2009). Não foi a toa que os dois foram premiados na última edição do Globo de Ouro, com os prêmios de Melhor Ator e Melhor Ator Coadjuvante, respectivamente. Resultado justíssimo devo reconhecer, tendo em vista que a minha confiança nas grandes premiações americanas não é lá essas coisas.

As atuações são o grande lance do filme. McConaughey está realmente impressionante, fisicamente, e na maneira com que conduz a transformação do seu personagem perante os acontecimentos na história. Com uma maestria no ar, eu poderia dizer. É interessante quando uma atuação é capaz de ofuscar outros elementos do filme, e simplesmente parecer que ele é carregado nas costas por ela. Acredito que tenha sido uma junção muito bem aproveitada, de ótimo elenco, direção e uma grande história. Os outros personagens além do duo principal são muito bem interpretados, mas um pouco rasos na história. Talvez pudessem ter sido melhor aproveitados, mas isso não faz muita diferença no resultado final. Detalhe para a pequena participação do ótimo Griffin Dunne.

Fiquei com uma música da trilha-sonora na cabeça (Life is Strange – Marc Bolan/T-Rex), e eu geralmente costumo ficar muito feliz quando descubro música nos filmes. E sempre que eu absorvo uma música boa de um filme, é um sinal de que o filme é muito bom, porque filmes ruins dificilmente tem bom gosto. Essa é apenas uma mania minha, mas achei que valia a pena compartilhar com vocês. A cena poética das borboletas é outra jóia rara desse filme. Um momento único.

E com manias ou não, eis aqui um dos grandes filmes que você verá este ano. Aproveite!

 

dallas_buyers_club_ver2

 

Clube de Compras Dallas (Dallas Buyers Club). EUA 2013. 117 min. Direção de Jean-Marc Vallée. Roteiro de Craig Borten e Melisa Wallack. Com Matthew McConaghey, Jared Leto, Jennifer Garner, Denis O’Hare, Steve Zahn, Griffin Dunne.

NC: 8     NP: 9     IMDB: Clube de Compras Dallas

Por: Ricardo Lubisco

Melhores Filmes de 2013

amourhaneke

 

– Amor – de Michael Haneke
O mundo se rendeu ao diretor austríaco Michael Haneke a partir do aclamado Caché (2005), mas é desde o primeiro filme de sua carreira, O Sétimo Continente (1989), que ele demonstra uma frieza e técnicas impressionantes para compor excelentes longas-metragens. Em Amor, Haneke realiza sua obra-prima. Palavras não traduzem a beleza artística e sentimental que o filme é capaz de produzir.

 

djangoUn

 

– Django Livre – de Quentin Tarantino
É difícil o diretor americano Quentin Tarantino realizar um filme e ele não constar nas listas dos melhores filmes do ano. Com uma tema envolvendo vingança e cenas ágeis de humor refinado, Django é mais uma grande obra na carreira de Tarantino. Se a maioria dos diretores de ação e comédia realizasse filmes como esse, o “cinemão” seria um prato muito bem servido.

 

bluewarmest

 

– Azul é a Cor Mais Quente – de Abdellatif Kechiche
Provavelmente o filme mais polêmico deste ano que terminou, o longa de Abdellatif Kechiche é profundamente marcado pela descoberta do primeiro amor, e das marcas que essa experiência imprimem para o resto da vida, seja ela homossexual ou não. Com uma filmagem sutil e bela, levou a Palma de Ouro em Cannes indiscutivelmente.

 

foto-pelicula-no-pelicula-2-757

 

– No – de Pablo Larraín 
No me pareceu de uma grandeza imensurável. É mais uma grande obra que o Chile produz, reforçando a notoriedade do cinema sul-americano. Com um tema um pouco delicado de ser abordado, Pablo Larraín, que já havia demonstrado seu talento com Tony Manero (2008), fez um filme para ficar marcado na história do cinema chileno como uma das melhores produções realizadas pelo País.

 

The_Master_Paul_Thomas_Anderson-70

 

– O Mestre – de Paul Thomas Anderson
Um filme aclamado pela crítica especializada e rejeitado pelas grandes premiações do cinema (acabou não levando nenhum prêmio importante), o filme do diretor Paul Thomas Anderson é um deleite visual com sintomas de filme épico. São poucos filmes como esse que temos o prazer de ver serem feitos. O prazer de separar um tempo para assistir. E com certeza estar aberto a sutilidades que acontecem durante o filme, como a bela cena da motocicleta no deserto.

 

o-som-ao-redor

 

– O Som ao Redor – de Kléber Mendonça Filho 
Certamente a maior surpresa do ano foi este tremendo trabalho do pernambucano Kléber Mendonça Filho. Ele construiu um filme muito difícil de ser realizado no Brasil, pois mantém a seriedade o tempo inteiro, sem apelar para a tentativa de realizar um cult Europeu na América do Sul. É um filme que tem uma identidade própria, e como bem diz o título, se aproveita da sonoridade como coadjuvante para o resultado final. Merece todas os comentários e honras recebidos. Um fôlego para o cinema brasileiro.

 

seven-psychopaths4

 

– Sete Psicopatas e um Shih Tzu – de Martin McDonagh
Desprezado pela grande maioria e taxado de cópia do cinema de Tarantino,Sete Psicopatas é mais um ótimo trabalho realizado pelo diretor inglês, que já havia demonstrado seu talentoso humor negro com Na Mira do Chefe(2008). Vida longa ao bom humor que desta forma é empregado: politicamente incorreto, louco, nonsense, vertiginoso, escrachado, absurdo. Sam Rockwell está delirantemente grandioso. Como não foi indicado em nenhuma premiação importante?

 

lugarondetudotermina

 

– O Lugar Onde Tudo Termina – de Derek Cianfrance
Um excelente nível de atuação, Ennio Morricone participando ativamente da construção da trilha-sonora, e uma direção segura e arrojada. O diretor Derek Cianfrance realiza aqui um filme que vai além de uma história filmada. Ele registra a história em momentos distintos mas relacionados pelos personagens, pelos lugares, pelos objetos, e claro, pela vida. Um dos melhores filmes do ano passado, com certeza absoluta.

 

Rush-Movie-Niki-Lauda

 

– Rush: No Limite da Emoção – de Ron Howard 
Um filme realizado por Ron Howard, mas sou da opinião de que o grande responsável para o sucesso dele é o diretor de fotografia Anthony Dod Mantle (Festa de FamíliaDogvilleExtermínio) que adiciona tons da época na filmagem mesclados com tecnologia digital, criando um efeito surpreendente e inovador. Rush não se limita a ser um filme sobre automobilismo, é um grande filme de uma grande história, que desperta os mais variados sentimentos.

*Lista originalmente publicada no site Cine Revista (Adriano de Oliveira), composta por filmes em cartaz na cidade de Porto Alegre entre o período de 02 de dezembro de 2012 à 06 de dezembro de 2013.

Piores Filmes de 2013

CLOUD ATLAS

 A Viagem – de Tom Tyker, Andy Wachowski e Lana Wachowski
Um dramalhão confuso, cheio de atores conhecidos, e de todas as formas tentando ser um filme rico em inteligência, tudo que na verdade ele não é.

Film_Review-Bad_Grandpa-0531c

– Jackass Apresenta: Vovô Sem Vergonha – de Jeff Tremaine
Quem quer que seja que teve a idéia de levar essa produção para os cinemas, tem uma percepção distorcida do que realmente vale a pena categorizar como um filme e chamá-lo como tal.

NOW YOU SEE ME

– Truque de Mestre – de Louis Leterrier 
Truque de Mestre, por todo o seu marketing e reunião de bons atores, é uma das grandes decepções do ano, certamente um dos piores filmes lançados neste 2013. É um filme sem sentido, feito para surpreender o espectador em um final esperado e com flashbacks “reveladores”. O desenvolvimento dos personagens é raso, sendo todos eles mal construídos no roteiro. E o pior de tudo é que uma continuação já foi anunciada.

steve-jobs-movie

– Jobs – de Joshua Michael Stern
O desperdício de uma história que poderia render uma ótima cinebiografia, com um filme feito às pressas e com um dos piores atores do cinema americano. Nada salva esta versão, realizada especificamente para fazer bilheteria e não arte.

Cro

– Crô – O Filme – de Bruno Barreto
O que faz um país aceitar levar ao cinema e construir uma história em torno de um personagem de novela? Esta obra obviamente produzida pela Globo Filmes, é mais um exemplo do atraso cinematográfico brasileiro em relação aos outros países da América do Sul. Enquanto continuarmos levando qualquer coisa para o cinema, filmes ótimos como O Som ao Redor (presente na minha lista de Melhores do Ano) serão cada vez mais raros.

movie-43-hugh-jackman-bollocks-1024x556

– Para Maiores – Vários
Mais uma prova de que o cinema de humor americano tem muito a aprender com o humor britânico. Mais um exemplo de filme que entra como um dos piores feitos no ano, enquanto um britânico no mesmo estilo (Sete Psicopatas e um Shih Tzu) entra na lista de Melhores. O mau gosto às vezes parece não ter limites.

tempovento

– O Tempo e o Vento – de Jayme Monjardim
O clássico de Érico Veríssimo adaptado para o cinema por um diretor de novelas da Globo: o resultado é um filme banal, mais parecido com uma minissérie do que com um longa-metragem. Escolher Thiago Lacerda como protagonista de um filme é assinar o seu fracasso. Salva-se uma boa fotografia, e nada mais.

*Lista originalmente publicada no site Cine Revista (Adriano de Oliveira), composta por filmes em cartaz na cidade de Porto Alegre entre o período de 02 de dezembro de 2012 à 06 de dezembro de 2013.

Até breve…

The-Master-Philip-Seymour-Hoffman

Doses amargas de tristeza pelas mortes de Eduardo Coutinho e Philip Seymour Hoffman é o que sinto em relação ao cinema neste momento. Poucas pessoas imaginariam um domingo tão triste para os amantes do cinema como este que o destino acabou construindo. A violência com que foi assassinado o cineasta brasileiro e a perplexidade pela overdose de um ator que tinha um gigantesco talento.

Não digo um adeus, apenas um até breve, pois é neste distinto universo cinematográfico que posso ter o prazer de ver e rever as obras que estes dois grandes nomes construíram. Por enquanto, apenas o luto.

coutinho