Norberto Lubisco

Texto escrito pelo grande Tuio Becker para a Zero Hora do dia 4 de setembro de 1993.

Eles são conhecidos como “os pintores da luz”. Sem eles um filme não existe. Pode-se realizar um filme sem roteiro, sem atores, sem música ou som, até mesmo sem produção. Só o fotógrafo é indispensável, pois através das imagens em movimento é que o filme ganha existência. Com a morte de Norberto Lubisco no último dia 2 de agosto (1993), aos 47 anos, o Rio Grande do Sul perdeu um de seus mais estimados e experientes “pintores da luz”, cuja participação no movimento cinematográfico gaúcho se estendeu por quase três décadas.

Retraçar a trajetória cinematográfica de Norberto Lubisco é difícil: sua participação esteve quase sempre ligada aos filmes rodados de forma independente e nas mais diversas bitolas, com grande ênfase para o 16mm, formato em que fotografou o único longa-metragem de sua carreira, Heimweh/Nostalgia (1991), de Sérgio Silva e do autor deste texto. “O Norberto sempre ajudava muita gente, resolvia os problemas, orientava se a cena ia ou não dar”, lembra Luis Carlos Pighini, para quem Lubisco fotografou em 8mm Os Bondes (1968). Herdeiro do espírito de uma época, do esforço coletivo em torno de uma idéia, ele estreou como assistente de fotografia de Antonio Carlos Textor na segunda versão (inacabada) de O Marginal, de Alpheu Ney Godinho.

Naquela época, Porto Alegre era diferente. Em 1968 a cidade tinha mais salas de exibição, clubes de cinema, grupos de estudo e jornais para divulgar e formar a cultura cinematográfica. Em 1966 Teixeirinha estrelara seu primeiro longa-metragem, Coração de Luto, de Eduardo Llorente, reacendendo a possibilidade de surgimento de um novo ciclo regional. Mas a produção de filmes era pequena, os curtas-metragens se resumiam a alguns 16mm feitos por aficionados ligados ao Foto-Cine Clube Gaúcho ou a grupos como o Centro de Estudos e Divulgação Cinematográfica (Cedic), da UFRGS, e o Centro de Estudos Cinematográficos (Cecin), da PUC.

O Cecin se dedicava a analisar filmes que tanto podiam ser obras clássicas menos conhecidas como produções do recente cinema novo brasileiro. Nessas reuniões eventualmente era exibido algum curta-metragem gaúcho, como A Última Estrela, de Antonio Carlos Textor (1966). E surgiam idéias que muitas vezes se transformavam em filmes. Integrante do Cecin, o ex-estudante de Física Norberto Lubisco fotografou, em 1967, A Conquista de um Espaço, de Luiz Maciorowski. No curta, um homem tenta montar uma cadeira preguiçosa no canteiro central da Avenida Farrapos. “Era uma reflexão simbólica sobre o estado de coisas da época”, dizia Lubisco.

Em 1969 o ato de fazer cinema foi atiçado em Porto Alegre pela possibilidade de inscrever um filme curto e pobre no 5º Festival de Cinema Amador do Jornal do Brasil. Sob o tema Um desafio em 90 segundos foram realizados seis curtas-metragens que marcaram presença no evento: Farsa, de Juarez Fonseca e Joaquim Peroni, Uma Vida em 90 segundos, de Ilias Evremidis, Antikatus, de Rubens Bender, todos mudos, Bom Dia, Você está Mudando, de Antonio Carlos Textor, O Mosca, de Nelson Canabarro, e Hoje, o Susto Eletrônico, de AlpheuNey Godinho, sonoros. Lubisco fotografou os dois últimos. Godinho, cujo filme foi premiado no festival, recorda que “já na época, os filmes do sul eram os estranhos no ninho na mostra de cinema Paissandu, templo da intelectualidade cinematográfica carioca”.

Assim como Sérgio Silva, Textor e Godinho, de quem fotografou grande parte dos filmes, Lubisco seguiu em atividade nos anos 70 para, nos 80, colocar sua assinatura nas imagens do curta No Amor, de Nelson Nadotti (1981), que marcou a ascensão do cinema gaúcho, de um período em que a chamada bitola nanica do Super-8 dominou a produção local, para o florescimento de um ciclo de longas-metragens, semelhante ao que marcou a primeira metade dos anos 70. Lubisco iluminou com fortes contrastes de preto e branco esse pequeno filme que, de um certo modo, se colocava como o manifesto de maioridade de toda uma equipe egressa do Super-8. As sóbrias imagens de Lubisco davam um equilíbrio clássico a irreverência da narrativa.

Na década de 80 o Festival de Gramado serviu de vitrina para a produção do Rio Grande do Sul. Por três vezes, Lubisco levou o prêmio de melhor direção de fotografia instituído pela Assembléia Legislativa. Seja com os tons sombrios de Urbano, de Antonio Carlos Textor, premiado em 1983, ou com as cores delirantes de Madame Cartô, de Nadotti, Carrosel, de Textor e Ano Novo, Vida Nova, de Godinho, os premiados de 1985, a arte de Lubisco se destacou. No festival deste ano ele recebeu um prêmio póstumo pela fotografia de Presságio, de Renato Falcão. Poucas vezes, como neste curta, o clima crepuscular e noturno de Porto Alegre foi fotografado com tanta maestria, ressaltando a adequação do cenário arquitetônico do passado com o contexto dramático de uma história ancorada no presente.

Lutando com as deficiências técnicas do mercado, Lubisco aliava, em sua atividade, um senso prático tão afinado quanto sua sensibilidade e habilidade para compreender as intenções do diretor com quem trabalhava. Era comum ouvi-lo dizer: “Professor, e como vai ser esta cena?”. Ele se comunicava facilmente por imagens. Do clima opulento de um filme de Luchino Visconti ao despojamento seco e frio de qualquer cineasta alemão, apoiado em sua profunda cultura cinematográfica  Lubisco era capaz de reproduzir em imagens as mais desvairadas intenções de qualquer realizador iniciante em busca de um grande efeito visual. Era capaz também de, nos momentos de maior crise, durante uma filmagem, insinuar um toque de otimismo quando ninguém mais da equipe acreditava no projeto.

Das artes a sétimae a mais industrializada, o cinema, corporificado em um filme, é também a mais perecível. Num toma cá dá lá, o celulóide se incendeia, vira esmalte de unhas ou fibra para vassouras, como mostrou Roberto Henkin em seu premiado curta Memória. A memória de um diretor de fotografia sobrevive nas imagens que ele criou para filmes alheios. Ao contrário de tantos colegas gaúchos de ofício, como Antonio Oliveira, Textor, Henkin ou Sério Amon, Lubisco jamais tentou a direção cinematográfica. “Talvez isso tenha se devido ao seu tipo de personalidade, meio caladão”, conjetura Sérgio Silva, para quem Lubisco fotografou Festa de Casamento (1991) e O Zeppelin passou por aqui (1993).

Capaz de iluminar um supermercado com um reduzido parque de luz, como ocorreu em Interlúdio, de Giba Assis Brasil e Carlos Gerbase (1982), ou projetar um carrinho para travellings “com o que se tem em casa”, Lubisco aliou, em sua trajetória, um profundo conhecimento de cinema como cultura e como técnica. Dessa fusão resultou um artista extremamente original que foi o primeiro dos “pintores da luz” de sua geração no cinema do Rio Grande do Sul.

Matérias:

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Caderno de Cultura – Zero Hora 06/03/2010

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Relatório de Readequação da Sala

Obras na Sala Norberto Lubisco

Sala Norberto Lubisco reabre!!!

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