2012

O Lugar Onde Tudo Termina

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Contrariando as massivas críticas que podem ser encontradas na internet dizendo que o filme é previsível e arrastado, o trabalho do diretor Derek Cianfrance (Namorados Para Sempre) é notável, e talvez tenha passado despercebido pela grande parte do público devido ao seu estendido tempo de duração (2h20). O Lugar Onde Tudo Termina é um filme muito bem realizado, com um excelente nível de atuação de todos os envolvidos, com uma marcante trilha-sonora (com o gênio Ennio Morricone matando a pau) ditando o ritmo dos momentos mais tensos do filme, e uma direção segura e arrojada, bem como o personagem principal da história interpretado por um ator em ascensão no cinema desde O Mundo de Leeland (2003), e que atualmente é um dos favoritos de Hollywood devido ao seu carisma e aos recentes ótimos trabalhos, Ryan Gosling.

Para mim, não existe essa história de filme muito longo, cansativo, e etc. Se é uma obra bem realizada ninguém fica de saco cheio do que está vendo. E O Lugar Onde Tudo Termina é um daqueles filmes que nos prendem a atenção em todos os momentos. É uma história muito bem construída, dividida em três períodos de tempo diferentes, mas o que realmente faz a diferença aqui é a maneira como os atores carregam a intensidade da história nos personagens. À primeira vista, pode parecer um drama barato com uma história pesada. Mas o filme está longe, muito longe disso. É possível perceber isso logo nos minutos iniciais, com uma excelente sequencia de introdução comandada pelo diretor, em que o personagem de Gosling vai de seu camarim até o “Globo da Morte” para fazer o seu número, atravessando todas as tendas, imprimindo em seu personagem a mesma atmosfera inquietante até o fim.

Ryan Gosling é um caso a parte. É o ator do momento, mas vêm fazendo ótimos trabalhos no cinema há pelo menos dez anos. Pode-se creditar o excelente Drive (2011) como o filme responsável pelo “boom” em sua carreira, mas as escolhas por papéis diferenciados foram certamente decisivas para o seu sucesso. Neste filme em particular, ele é o grande responsável pela introdução da história, mas ela continua viva e pulsante nos demais atores. Ótimos trabalhos de Eva Mendes, Bradley Cooper, Ray Liotta, e dos jovens Emory Cohen e Dane DeHaan.

Em uma época de muitos filmes ruins e poucos filmes com alguma qualidade latente, pode-se dizer que O Lugar Onde Tudo Termina é ótimo, mesmo eu acreditando que bons trabalhos realizados sejam atemporais. E a beleza deste filme está repartida por diversos momentos, assim como a história que ela apresenta. Desde uma panorâmica de uma motocicleta na estrada, passando pelas descobertas de um passado obscuro, até uma fotografia dobrada em uma carteira. O diretor Derek Cianfrance realiza aqui um filme que vai além de uma história filmada. Ele registra a história em momentos distintos mas relacionados, pelos personagens, pelos lugares, pelos objetos, e claro, pela vida.

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O Lugar Onde Tudo Termina (The Place Beyond the Pines). EUA 2012. 140 min. Direção de Derek Cianfrance. Roteiro de Derek Cianfrance, Ben Coccio, Darius Marder. Com Ryan Gosling, Eva Mendes, Bradley Cooper, Ray Liotta, Emory Cohen, Dane DeHaan.

NC: 8     NP: 8      IMDB: O Lugar Onde Tudo Termina

Por: Ricardo Lubisco

Jogos Vorazes

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Jogos Vorazes apenas é um sucesso devido à burrice das pessoas, a eterna mania de se contentar com qualquer coisa moldada para agradar a gregos e troianos, e a inevitável arte do cinema, a qual diferentemente da pintura, leitura, e tantas outras artes, não precisamos de qualquer discernimento e conhecimento prévio, apenas ter um par de olhos e deixá-los parados em frente a uma tela.

Mas calma, não se espantem com o tom revoltado com o qual dei início a este texto. Jogos Vorazes está longe de ser um filme tão ruim assim, mas se sustenta apenas na atuação da ótima Jennifer Lawrence. Todo o resto que vemos na tela, é uma cópia descarada de tudo que já foi visto em Batoru rowaiaru ou Battle Royale, como é mais conhecido esse filme japonês lançado no ano 2000. Bem, não é exatamente uma cópia descarada, pois devido as proporções Hollywoodianas, foram adicionadas pitadas de romance e açúcar. Resumidamente, me parece o enredo de Battle Royale misturado com a baboseira de Crepúsculo. Um forte indicativo disto, são os fãs dos dois filmes. Exatamente iguais.

Apesar de tantos pontos negativos no filme, as atuações de Woody Harrelson, Donald Sutherland, e da Jennifer Lawrence (já citada anteriormente) são muito boas e garantem os melhores momentos do filme. A jovem atriz carrega o filme nas costas com uma atuação respeitável, demonstrando muito talento, e o motivo pelo qual faturou o Oscar desse ano com O Lado Bom da Vida.

Ainda assim, Jogos Vorazes acaba sendo um entretenimento muito barato, focado no público adolescente para fazer rios de dinheiro.

Me senti um pouco pessimista escrevendo este texto, mas acredito que qualquer apreciador de um bom cinema tenha uma opinião parecida com a minha. Como diz a letra de uma música dos Titãs, “a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”. Ou seja: não me venha com entretenimento barato, cópia de um filme japonês, e que parece o romance dos vampiros modificado. Me traga algo realmente instigante, um entretenimento leve e divertido, um filme para querer rever, uma ficção utópica. Qualquer coisa que seja original e bem feita. Qualquer idéia, sentimento, ou pensamento único. Mas, por favor, não me faça de panaca com um filme adaptado de um livro para uma faixa etária de 13 à 16 anos, disfarçado de uma ficção surpreendente.

É a triste máquina de Caça-Níqueis trabalhando incessantemente em algum lugar da Califórnia.

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Jogos Vorazes (The Hunger Games). EUA 2012. 142 min. Direção de Gary Ross. Roteiro de Gary Ross, Suzanne Collins (romance), Billy Ray. Com Jennifer Lawrence, Stanley Tucci, Josh Hutcherson, Woody Harrelson, Donald Sutherland.

NC: 6     NP: 4     IMDB: Jogos Vorazes

Por: Ricardo Lubisco

#80 Amor

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Amor é um filme que segue genuinamente a maneira com que Michael Haneke, um dos meus diretores preferidos (por muitas razões que deixarei para explicar em outro momento), desenvolve a maioria das histórias de seus filmes: De uma maneira muito direta e sem sentimentalismo barato. Uma das grandes qualidades do diretor austríaco. Fico imaginando este filme sendo realizado em Hollywood e todos os Oscar que ele teria ganho se fosse americano.

Pode parecer um comentário um pouco ríspido de início, mas não há como pensar em Amor não vencendo os prêmios que disputou no Oscar, e principalmente perdendo para Argo na categoria de Melhor Filme e Emmanuelle Riva não recebendo o prêmio de Melhor Atriz. É uma piada este ainda ser considerado o maior prêmio do cinema mundial, sendo que ele reconhece em quase sua totalidade somente o cinema americano. É uma visão do absurdo, e tomei a decisão de nunca mais levar o Oscar a sério, assim como nunca mais irei escrever algo sobre as cerimônias de premiação.

O filme segue uma linha realista muito particular e que Haneke construiu durante toda a sua carreira. Muitos começaram a acompanhar seus filmes devido ao enorme sucesso de Caché (2005), um de seus grandes filmes de impacto visual, que contém uma das cenas mais perturbadoras do cinema, mas eu recomendo as pessoas à assistirem o primeiro longa-metragem do diretor, O Sétimo Continente (1989). Este filme é tão realista e impactante quanto Amor, e é um exemplo do cinema que Haneke realizou durante todos estes anos até agora. Ele é um diretor que nunca se deixou levar pela emoção de realizar um drama comovente apenas para ser aplaudido pela crítica.

As atuações de Jean-Louis Trintignant (Haneke escreveu o papel para ele) e Emmanuelle Riva são esplêndidas. O que estes dois atores fizeram em cena nesse filme é um incrível trabalho de dois enormes talentos do cinema, eternizando para sempre a imagem de suas atuações em uma idade muito avançada. O reconhecimento pela atuação é ainda maior pelo filme retratar exatamente esta situação: a velhice. Mas não apenas a velhice, como também a proximidade da morte, e o amor que nos resta quando estamos no momento mais difícil da vida.

Amor tem tantas belas cenas, que a verdadeira impressão do filme é o sentimento que ele deixou em mim. Como bem explica o personagem de Trintignant em uma certa parte do filme, depois de um tempo lembramos de poucas cenas dos filmes, de apenas alguns detalhes da história, mas o sentimento que temos ao pensar no filme é único. E este é um desses filmes. Pela construção (ou desconstrução) da história, pelos momentos apresentados (reais ou surreais), e pelas expressões magníficas desses atores que tanto me marcaram.

De qualquer maneira, palavras não traduzem a beleza artística e sentimental que Amor é capaz de produzir. A obra-prima de um mestre.

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Amor (AMOUR). FRA/ALE/AUT 2012. 127 min. Direção e Roteiro de Michael Haneke. Com Jean-Louis Trintignant, Emmanuelle Riva, Isabelle Huppert, Alexandre Tharaud.

NC: 10     NP: 10     IMDB: Amor

Por: Ricardo Lubisco

#76 Anjos da Noite – O Despertar

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Não tendo visto filme algum da “série” Anjos da Noite, me deparei com este filme do ano passado e resolvi assisti-lo na melhor das intenções.

Não achei ele tão ruim quanto me parecia. Tem uma história interessante, mas parece que fraqueja ao longo do caminho e não consegue ultrapassar a linha entre um bom filme e um filme mediano.

Interessante são os efeitos especiais, muito bem colocados no filme, mas fora isso, nada de muito relevante. Parece ser o papel que deixou a atriz Kate Beckinsale marcada no cinema. O criador original dos filmes escreveu o roteiro e o entregou para dois jovens diretores (russos, acredito) fazerem acontecer.

Com certeza, não é um filme que assistirei outra vez. Acho que quando pensamos dessa maneira, conseguimos medir se um filme é bom ou ruim para nós.

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Anjos da Noite – O Despertar (Underworld – Awakening). EUA 2012. 88 min. Direção de Mans Marlind e Bjorn Stein. Com Kate Beckinsale, Stephen Rea, Michael Ealy, Theo James.

NC: 3     NP: 2     IMDB: Anjos da Noite – O Despertar

Por: Ricardo Lubisco

#74 O Quarteto

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A dificuldade em escrever sobre este filme, está em escolher as palavras certas para definir algo tão belo e bem escrito.

O primeiro filme dirigido pelo conhecido ator Dustin Hoffman é muito bom. Hoffman se destaca por ter uma direção segura e firme logo no seu primeiro trabalho atrás das câmeras. Mas a direção de Hoffman acaba sendo ofuscada pelo belíssimo roteiro escrito por Ronald Harwood. Ele que também é o autor da peça que inspirou o filme, faz um trabalho excepcional com cenas magistralmente escritas que elevam o filme a um outro patamar. O charme das palavras e frases são algo a parte neste filme que transpira um ar sutil e muito agradável.

Esta ambientação do filme vem muito de sua história, da maneira como é tratada a velhice e seus percalços, sem deixar de lado alegria que a experiência de uma vida é capaz de trazer. Tudo de uma maneira muito nobre. Uma cena em particular que eu gostei muito, é a de uma aula em que o personagem de Tom Courtenay conversa com seus alunos sobre ópera e rap. A maneira como são colocados esses dois gêneros da música no contexto da conversa é brilhante.

Os destaques estão por todo o filme, que têm em todo seu elenco a naturalidade necessária para tornar este filme grande. Destaque para Maggie Smith (que foi indicada a um Globo de Ouro por sua atuação) e Tom Courtenay.

Uma curiosidade é que diversos músicos e artistas estão entre os atores e figurantes, trazendo um brilho especial ao filme, justamente pelo tema ser a velhice de grandes astros da música. Um filme tocante. Certamente um dos melhores filmes do ano passado, pouco conhecido pelo público em geral.

Vale a pena parar um pouco e assistir esta bela obra.

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O Quarteto (The Quartet). UK 2012. 98 MIN. Direção de Dustin Hoffman. Roteiro de Ronald Harwood. Com Maggie Smith, Tom Courtenay, Billy Conolly, Pauline Collins, Michael Gambon, Sheridan Smith.

NC: 8     NP: 8     IMDB: O Quarteto

Por: Ricardo Lubisco

#62 Hitchcock

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Hitchcock é um filme bem realizado e disfarçado de filme popular com algumas sub-tramas, mas entretenimento certo para cinéfilos.

Entre muitos acertos, para começar, está a de Anthony Hopkins ser o escolhido para interpretar o cineasta. Caiu perfeitamente bem no papel, passando todo o sentimento de uma cena apenas com a expressão. Por momentos pode parecer uma expressão um pouco forçada, mas a fisionomia de Hitch é um caricata. Saindo da expressão para as falas, muito bem pontuadas, fazendo deste um grande papel na carreira de Hopkins que será eternamente conhecido por seu papel em O Silêncio dos Inocentes.

As sub-tramas me incomodaram um pouco, e acredito que foram colocadas no roteiro para agradar ao público em geral e tornar o filme mais comercial, o que definitivamente foi um ponto negativo.

O filme em si é muito bom. Bem feito, com uma ótima direção de arte e atuações, incluindo a de Helen Mirren, estonteante. Para qualquer pessoa que tenha visto Psicose e goste de cinema, é um deleite visualizar as curiosidades que envolveram os bastidores do filme, e de certa forma, vivenciar essa época maravilhosa do cinema. Chega a ser uma supresa a qualidade do filme, justamente por seu diretor ser praticamente um estreante na direção.

Interpretar Hichcock, e fazer um filme sobre os bastidores do seu filme mais conhecido não era uma missão nada fácil. Mas com muito bom humor e competência, Sacha Gervasi realizou um trabalho excelente e muito agradável. Recomendo a todos que gostem de cinema, para desbravar os mitos que cercaram essa produção de 1960, e claro, para conhecer um pouco mais da inteligência e senso cinematográfico do mestre do suspense.

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Hitchcock. EUA 2012. 90 min. Direção de Sacha Gervasi. Roteiro de John J. McLaughlin, Stephen Rebello (livro). Com Anthony Hopkins, Helen Mirren, Scarlett Johansson, Danny Huston, Toni Collette.

NC: 7     NP: 7     IMDB: Hitchcock

Por: Ricardo Lubisco

#55 O Som ao Redor

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Eis aqui então o filme brasileiro mais discutido dos últimos anos. E após assistir o primeiro longa do diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho, vou tentar textualizar as minhas impressões.

Primeiramente, O Som ao Redor é um filme que mereceu toda a atenção e repercussão que ganhou. É um trabalho muito bem realizado, muito difícil de ser realizado no Brasil, aonde a cultura a este tipo de filmagem usada no longa não é nem um pouco convencional, visto que as características empregadas na parte técnica são muito comuns nos filmes europeus. Não só a técnica de filmagem, mas também o ritmo do filme, que com certeza não agradou muitas pessoas, mas tem uma relevância muito grande ao que está sendo mostrado na tela, assim como na visão geral do filme.

Um tipo de filme visto poucas vezes tão bem executado aqui no Brasil, levando em conta a quantidade de filmes globais realizados e a quantidade de filmes mais “independentes” que forçam um status cult. O Som ao Redor é genuíno em sua característica sem apelar para o cult, para o bizarro, para o estranho. Tudo de diferente visto no filme, vêm da maneira como a história é contada e filmada, o que definitivamente o faz ser de grande importância.

O texto pode estar um pouco estranho, mas realmente é difícil encontrar as palavras certas para explicar o significado para mim de O Som ao Redor. Como o próprio título já diz, o som é trabalhado no filme de maneira fantástica, assim como a atuação (por incrível que pareça) natural dos personagens, extremamente diferente daquela caracterização de novela a que estamos acostumados em grande parte do cinema nacional. Outro ponto positivo é a narrativa nem um pouco clara do que está acontecendo e para onde o filme se encaminha, deixando claro um estilo de filme tantas vezes visto no cinema europeu. Mais uma surpresa é o surrealismo presente no filme, colocado em momentos oportunos e que deixaram as cenas muito mais grandiosas. A atmosfera criada na inserção de alguns personagens na história é também excelente.

Porém, apesar de todos os elogios, o filme é sim limitado. Colocado no plano geral cinematográfico, fica devendo em objetividade, assim como em algumas atuações. Comparado com grandes filmes brasileiros, ele fica abaixo de filmes equilibrados em um todo, tanto artisticamente quanto tecnicamente. Notei aqui uma técnica apurada e diferenciada, mas no sentido artístico de atuações e roteiro, o filme desce um pouco na gangorra deixando o resultado final desequilibrado.

De um modo geral, O Som ao Redor é um presente para o cinema brasileiro, mostrando que é possível sim realizar filmes de muita qualidade técnica e longe do sistema noveleiro a que estamos acostumados, o famoso “vamos fazer um filme para uma bilheteria estimada em 2 milhões de pessoas, com atores conhecidos, de preferência uma comédia sem graça, estilo Zorra Total, que é o que o povo gosta de ver”. Apesar de grandes filmes realizados aqui no Brasil, sinto que ainda estamos alguns passos atrás do cinema sul-americano. O que com a qualidade deste filme do diretor Kleber Mendonça Filho, nos dá um pouco mais de esperança nesta alavancada do cinema brasileiro.

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O Som ao Redor. BRA 2012. 131 min. Direção e Roteiro de Kleber Mendonça Filho. Com Irma Brown, Sebastião Formiga, Gustavo Jahn, Maeve Jinkings, Dida Maia, Irandhir Santos, W. J. Solha.

NC: 7     NP: 8     IMDB: O Som ao Redor

Por: Ricardo Lubisco