Década de 50

#58 Glória Feita de Sangue

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Este é um filme que Stanley Kubrick fez para mostrar ao mundo que tinha colhões. Não vejo outra razão tão sensata para ele ter realizado este filme tão irônico e verdadeiro, quando o mundo (principalmente a Europa) ainda respirava os ares da Guerra.

Banido em diversos países, entre eles a França e a Alemanha, países representados no filme, Glória Feita de Sangue é um retrato ácido dos interesses políticos de uma nação, e da desumanidade que esta nação é capaz de atingir para chegar a seus objetivos.

O filme hoje é um clássico do cinema, e como a maioria dos clássicos, na época foi um fracasso de bilheteria. Realizado em 1957, Glória Feita de Sangue foi um projeto muito audacioso de Kubrick, pois realizou um filme sem um final convencional, aonde há um galã que salve os oprimidos e termine a história como herói. Há sim um herói, e este é o personagem de Kirk Douglas. Herói em ser uma pessoa íntegra, reflexiva, e lutar pelas suas convicções como ser-humano. E são muitos os momentos de demonstração de caráter no filme, pois o roteiro é espetacular, com diálogos significativos e irônicos.

Outro ponto importante do filme, é que nele vemos características recorrentes no cinema de Kubrick, principalmente a maneira como é filmado, as posições de câmera, e o belo passeio nas trincheiras (apesar de um pequeno deslize de iluminação, em um certo momento aonde a sombra da câmera aparece).

Uma ironia sem fim. As filmagens ocorreram na Alemanha, não tem um final convencional, e é inteiramente falado em inglês (durante todo o filme, a história é contada representando o exército francês). E este detalhe em particular, de representar um país e todos os atores falarem uma outra língua, me incomoda muito. Acho uma falta de respeito e seriedade. Mas este filme em particular pode ser considerado um surrealismo de Kubrick. Tanto como o motivo de fuzilamento, como a investida impossível, como todos os soldados cantando juntos.

Aqui Kubrick demonstrou ser um diretor nada convencional, e entregou para o público apenas um aperitivo do que estava por realizar.

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Glória Feita de Sangue (Paths of Glory). EUA 1957. 88 min. Direção de Stanley Kubrick. Roteiro de Stanley Kubrick, Calder Willingham, Jim Thompson, Humphrey Cobb (romance). Com Kirk Douglas, Ralph Meeker, Adolphe Menjou, George Macready, Wayne Morris, Richard Anderson.

NC: 9     NP: 8     IMDB: Glória Feita de Sangue

Por: Ricardo Lubisco

#57 Acossado

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É fácil entender o por que Acossado foi revolucionário para a história do cinema, e é ainda aclamado nos dias de hoje como uma verdadeira obra-prima.

No distante ano de 1959, o cinema ainda era conhecido por ser uma arte somente possível de realização dos grandes estúdios e Jean-Luc Godard era apenas um jovem crítico de cinema da hoje histórica revista Cahiers du Cinéma. A realização de Acossado por Jean-Luc Godard, baseado em uma história do também crítico da Cahiers, François Truffaut, mudou para sempre a história do cinema.

Até aquele momento, os filmes eram realizados categoricamente obedecendo uma ordem, um formato. Era muito comum ter o padrão americano como referência no cinema, mesmo naquela época já existindo cineastas que fugiam desses padrões, como por exemplo Luis Buñuel, que realizou o clássico Os Esquecidos em 1950. Mas a genialidade de Godard é escancarada a partir do momento em que ele decide realizar o filme sem um roteiro convencional, baseando-se apenas na história do amigo Truffaut, e em algumas anotações que ele havia feito. Por todo o dinamismo empregado no filme, fica claro que existe algo de diferente desde o começo, quando o ator Jean-Paul Belmondo fala olhando para a câmera. E este dinamismo é um pouco confuso inicialmente (imagino o quanto foi confuso naquela época), mas em diversas cenas até o fim do longa-metragem, o filme entra em diálogos existencialistas e poéticos, livremente realizados justamente por Godard dar liberdade o suficiente para os atores improvisarem, algo totalmente novo no cinema. E aqui começava a Nouvelle Vague, juntamente com Os Incomprendidos de Truffaut, e Hiroshima, mon amour de Alain Resnais, todos de 1959. Um ano memorável cinematograficamente. 

Os filmes da Nouvelle Vague influenciaram toda uma geração de cineastas ao redor do mundo, inclusive americanos. Nouvelle Vague era sinônimo de algo revolucionário, pois aqui foi criado o cinema de autor, aonde jovens críticos arregaçaram as mangas e foram realizar suas obras, com uma boa idéia e uma câmera na mão.

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Acossado ainda nos introduz a jovem e bela Jean Seberg, que cria moda com seu vestuário e corte de cabelo. Outra coisa que não posso esquecer de falar é do estilo que tem o personagem de Jean-Paul Belmondo. Já dizia Charles Bukowski que a coisa mais importante em um homem é o estilo, e que às vezes existem cachorros com mais estilo do que homens. Dizia que o estilo está na forma de caminhar, se portar, falar. E Belmondo é aqui um ícone deste estilo que o velho safado tanto falava. Um malandro encantador e poético.

É um filme memorável, que ficará sempre eternizado pela criação de um novo cinema, repleto de cenas marcantes. Como a que o personagem de Belmondo reflete uma época somente com a expressão na sua face ao examinar um pôster de Humphrey Bogart.

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Acossado (À bout de Souffle). FRA 1959. 90 min. Direção de Jean-Luc Godard. História de François Truffaut. Com Jean Seberg, Jean-Paul Belmondo.

NC: 10     NP: 8     IMDB: Acossado

Por: Ricardo Lubisco

#28 O Homem do Braço de Ouro

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A maior qualidade deste filme do diretor austríaco-húngaro Otto Preminger é o roteiro. Assim como a maioria dos filmes dos anos 50 para baixo, o cuidado com algumas coisas eram deixadas de lado, mas isso sempre era ofuscado pelas ótimas histórias e segredos na trama. É o caso de O Homem do Braço de Ouro. Muitas vezes é possível ver a sombra da câmera no estúdio o que acaba sendo incômodo. Acho que mesmo para a época, é um cuidado que no cinema nunca é demais.

Apesar desse e alguns outros pontos negativos, O Homem do Braço de Ouro tem muitas qualidades. Uma ótima atuação de Frank Sinatra, que foi indicado ao Oscar pelo papel. Sinatra vinha de um Oscar de Melhor Ator por A um Passo da Eternidade (1953), e quando leu o roteiro assinou o mais rápido possível (o papel de Frankie Machine foi oferecido à Marlon Brando que não teve nem tempo de aceitar, pois Sinatra já havia assinado). Com boas atuações no geral, é daqueles típicos filmes rodados nos antigos estúdios de Hollywood.

A meu ver, parecia um tema um pouco pesado para a época (1955), como o uso explícito de heroína. Fora isso, o filme é reconhecido hoje em dia pela atuação de Sinatra e por seu maravilhoso pôster, eleito um dos mais bonitos de todos os tempos pela revista Premiere.

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O Homem do Braço de Ouro (The Man With The Golden Arm). EUA 1955. 119 min. Direção de Otto Preminger. Roteiro de Walter Newman, Lewis Meltzer, Nelson Algren (livro). Com Frank Sinatra, Eleanor Parker, Kim Novak, Arnold Stang, Robert Strauss.

NC: 8     NP: 7     IMDB: O Homem do Braço de Ouro

Por: Ricardo Lubisco

#18 A Estrada da Vida

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A Estrada da Vida é um filme sem um roteiro convencional, sem uma história convencional. Em meio a atuações clássicas (Anthony Quinn) e circenses (Giulietta Masina) é um belíssimo filme e exemplo de cinema desde 1954.

Não acho que exista algo tão belo no cinema como as atuações de Giulietta Masina, que encanta e consegue toda a minha simpatia com apenas algumas expressões. Provavelmente apenas Charles Chaplin esteja à altura desta gigante pequenina atriz. Virtudes, arrependimentos, sorrisos e lágrimas. Tudo em torno dos personagens de Giulietta Masina e do eterno Zorba, Anthony Quinn. Como li em uma crítica do filme há algum tempo atrás, a personagem de Giulietta é por si só uma obra-prima.

É um filme que vai permanecer intocado como um dos melhores a refletir o sentimento dos personagens de uma maneira extremamente profunda, e ao mesmo tempo, como se fosse apenas mais um dia na estrada.

A Estrada da Vida, de Federico Fellini, foi o primeiro filme a vencer na categoria de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar em 1957.  Tem ainda uma maravilhosa trilha sonora composta por Nino Rota, famoso compositor de trilhas inesquecíveis como a de 8 1/2, Amarcord, e O Poderoso Chefão I e II.

Uma obra prima de Fellini que ficará guardada com muito carinho na minha memória junto de 8 1/2 e Noites de Cabíria.

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A Estrada da Vida (La Strada). Direção de Federico Fellini. Roteiro de Tullio Pinelli, Federico Fellini e Ennio Flaiano. Com Anthony Quinn, Giulietta Masina, Richard Basehart.

NC: 9     NP: 10     IMDB: A Estrada da Vida

Por: Ricardo Lubisco 

Hiroshima meu amor

Hiroshima meu amor é uma instigação para o futuro. O marco que representa pode ser fincado sem o menor receio. Resta esperar os frutos provenientes de um aproveitamento ainda mais evolutivo de seus elementos – assim como, da outra revolução anterior, Cidadão Kane, encontramos na técnica de Resnais o dedo de Welles. O ciclo inventivo se refaz e se multiplica.”

                                    José Lino Grünewald – Um filme é um filme (o cinema de vanguarda dos anos 60). Cia das Letras, 2001.                                                                                                        

Desta forma termina a crítica de José Lino, originalmente publicada no Jornal das Letras em junho de 1960. Não posso fazer nada mais do que concordar. O filme feito em 1959 é extremamente inovador.  Em uma entrevista concedida nos extras do DVD, Resnais comenta que Hiroshima inicialmente era para ser um curta (o diretor já havia feito mais de uma dezena de curtas metragens) de 45 minutos que acabou virando um longa-metragem. O primeiro de sua extensa e ainda produtiva carreira. Hiroshima é praticamente um poema filmado. A sua beleza está nos sentimentos que a câmera de Resnais consegue captar, nas imagens narradas, no confuso sentimento pós guerra, nos closes de câmera, no roteiro não linear, na trilha sonora que complementa sabiamente as imagens, e na ótima atuação de Emmanuelle Riva. Uma obra e tanto!

Hiroshima meu amor ( Hiroshima mon amour). FRA/JAP 1959. 90 min. Direção de Alain Resnais. Com Emmanuelle Riva, Eiji Okada, Stella Dassas, Pierre Barbaud, Bernard Fresson.

NC: 10     NP: 9     IMDB: http://www.imdb.com/title/tt0052893/

Por: R. Lubisco

a malvada

Talvez a melhor maneira para se comprovar a qualidade de um filme seja o tempo. Somente com ele é possível perceber que os elogios e críticas positivas não acontecem por acaso. Filmes que são cultuados desde o seu lançamento e se tornam referências do cinema. Mesmo tendo 60 anos de idade, A Malvada, continua e será para sempre, um grande filme. Numa época onde a filmagem era limitada e os efeitos especiais eram praticamente nulos, onde os filmes baseavam-se principalmente nas atuações de seus artistas, em roteiros extremamente criativos e em diretores com a habilidade necessária para transformar todas estas peças em um bom filme. Bette Davis em uma atuação magnetizante e inesquecível. Destaque também para a pequena participação de Marilyn Monroe, como aspirante a atriz. Papel que inclusive acabou sendo de grande importância para sua carreira. A Malvada recebeu 14 indicações para o Oscar 1951 (Só Titanic, 47 anos depois, conseguiu igualar este número de indicações). Levou seis. Melhor filme, direção, roteiro, ator coadjuvante, figurino e melhor som. Bette Davis ainda ganhou o Prêmio de Melhor Atriz no Festival de Cannes.        

A Malvada (All About Eve). EUA 1950. 138 min. Direção de Joseph. L. Mankiewicz. Com Bette Davis, Anne Baxter, George Sanders, Celeste Holm, Gary Merril, Hugh Marlowe, Marilyn Monroe.

NC: 9     NP: 10     IMDB: http://www.imdb.com/title/tt0042192/

Por: R. Lubisco

O Homem que Sabia Demais

Daniel Gélin e James Stewart em O Homem que Sabia Demais

Daniel Gélin e James Stewart em O Homem que Sabia Demais

“O Homem que Sabia Demais” (The Man Who Knew Too Much) é um grande filme de Alfred Hitchcock. Um filme que segue a risca as características de seu diretor. Neste clássico de 1956, que é a refilmagem de um filme de 1934 com o mesmo nome e dirigido pelo mesmo diretor, os protagonistas são James Stewart (velho de guerra de Hitchcock) e Doris Day. O filme tem vários destaques, dentre eles, o Oscar recebido pela bela canção original “Que será, será (Whatever Will Be, Will Be)”, a trilha sonora composta pelo gigante Bernard Hermann (“Cidadão Kane”, “O Terceiro Tiro”, “Um Corpo que Cai”, “Psicose”, “Táxi Driver”), e a sempre ótima atuação de James Stewart.

É sempre um prazer assistir a um filme de Hitchcock. Você sabe que será um filme interessante, com personagens bem montados, bem representados, e que terá cenas belíssimas em diversos pontos da exibição. Destaque para uma cena no Royal Albert Hall, de Londres, que é primorosa, e para Doris Day cantando “Que será, será” ao piano.

O Homem que Sabia Demais (The Man Who Knew Too Much). EUA 1956. 120 min. Direção de Alfred Hitchcock. Com James Stewart, Doris Day, Brenda De Banzie, Bernard Miles, Ralph Truman.

NC: 8     NP:8     IMDB:  http://www.imdb.com/title/tt0049470/

Por: R.Lubisco