Harvey Keitel

#56 Um Drink no Inferno

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Toda vez que eu ouvia alguém falar algo sobre Um Drink no Inferno, imediatamente eu pensava em Quentin Tarantino. E por mais que muitas outras pessoas estejam relacionadas ao filme, a presença de Tarantino é o que realmente faz o diferencial.

Realizado alguns anos após Pulp Fiction e Cães de Aluguel, este filme não funciona da mesma maneira que os anteriores. Apesar de ter uma primeira parte bem semelhante ao estilo do diretor, a segunda é uma gigantesca homenagem aos filmes gore, fazendo a essência do filme ser uma bizarrice sem noção. Parece que juntaram dois filmes diferentes.

Mas apesar disso, ele funciona muito bem em alguns momentos. Um ótimo elenco, e os diálogos ágeis da primeira parte, garantem momentos de um bom cinema, assim como as manias do personagem de Tarantino no filme, completamente descartadas na segunda parte.

O resultado do filme definitivamente é uma diversão entre amigos. O filme foi dirigido por Robert Rodriguez, que mais adiante trabalhou com Tarantino no excelente Grindhouse. Na altura em que foi realizado o filme, Rodriguez também era um diretor em ascensão, já realizado filmes que alavancaram a sua carreira como El Mariachi e A Balada do Pistoleiro.

Um Drink no Inferno construiu uma aura de filme cult por ser encontrando apenas em VHS, e além disso, bastava ter sido realizado por Tarantino que virou objeto de consumo de seus ardorosos fãs e aficionados até hoje. Tenho uma ponta de decepção após assistir ao filme, ao mesmo tempo em que reconheço a qualidade em que a história é invertida e apresentada para o público. De uma hora para outra vai de um filme promissor ao típico filme B, o que pode não agradar a todos, como no meu caso.

Uma divertida viagem, sem dúvida alguma.

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Um Drink no Inferno (From Dusk Till Dawn). EUA 1996. 108 min. Direção de Robert Rodriguez. Roteiro de Quentin Tarantino e Robert Kurtzman (história). Com Quentin Tarantino, George Clooney, Harvey Keitel, Juliette Lewis, Salma Hayek, Cheech Marin, Danny Trejo.

NC: 6     NP: 5     IMDB: Um Drink no Inferno

Por: Ricardo Lubisco

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#42 De Olhos Bem Fechados

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Muita coisa se falou desde que Stanley Kubrick anunciou a produção de De Olhos Bem Fechados, e inevitavelmente segue até hoje como motivo para discussões e argumentações em rodas de amigos cinéfilos, para uma melhor compreensão do último trabalho de um dos melhores cineastas de todos os tempos.

Muitas histórias circulam os bastidores do filme. O tempo que precisou levar para ser completado (algo em torno de três anos), a dureza que Nicole Kidman e Tom Cruise passaram nas mãos de Kubrick (um perfeccionista, muitas vezes taxado de tirano por sua equipe), a reposição de atores por causa da demora nas filmagens (inicialmente, Harvey Keitel e Jennifer Jason Leigh fariam os papéis que acabaram ficando com Sydney Pollack e Marie Richardson), entre outros detalhes.

Há alguns anos atrás, li um livro escrito por Frederic Raphael, co-roteirista do filme ao lado de Kubrick, chamado “De Olhos Bem Abertos”, sobre as conversas que ele tinha com o excêntrico gênio do cinema que envolviam a construção do roteiro do filme. Não me lembro de muitas coisas, mas o que me marcou daquela leitura (aliás, uma ótima maneira de conhecer melhor Kubrick) foi o perfeccionismo e paixão que Stanley Kubrick tinha pelo roteiro que estava construindo e pela maneira como ia fazer isso. Ele analisava cada diálogo, cada cena, cada movimento de câmera, de luz, para criar o melhor ambiente para a história. Se questionava o por quê tal coisa seria importante na cena, se devia mesmo estar lá. Uma leitura reveladora que explica um pouco a demora para realização do filme, e todos os mitos que o envolvem. Na minha opinião, Kubrick não devia explicação alguma sobre isso. Não lembro de existir atualmente um diretor como ele, com tamanho brilho, inteligência, e amor pelo cinema. É uma notícia oficial a de que ele tenha entregue para a Warner Bros a versão final do filme quatro dias antes de morrer, mas eu tenho minhas dúvidas quanto a isso. Kubrick era extremamente perfeccionista, e é claro em alguns momentos do filme um pequeno excesso de tempo, provavelmente descartável nas mãos de Kubrick.

O filme que foi abarrotado de críticas negativas na época de seu lançamento, divide opiniões ainda hoje. Não foi indicado para grandes prêmios e é lembrado por muitas pessoas até hoje como o último trabalho ruim daquele ótimo diretor. Mas a minha opinião é um pouco diferente.

De Olhos Bem Fechados encerra com louvor a carreira de Kubrick. Certamente todos esperavam uma obra-prima do homem que fez 2001 – Uma Odisséia no Espaço, O Iluminado (massacrado na época do lançamento, hoje mais que cultuado), Dr. Fantástico, entre outros. E De Olhos Bem Fechados não é uma obra-prima, não é um clássico do cinema. Mas é um filme tecnicamente de altíssimo nível. Ele tem um roteiro complexo de adaptação, pela maneira como Kubrick o escreveu, mas realiza a direção das cenas magistralmente, como ninguém faria tão bem. É um prazer ver Cruise adentrar algum ambiente e a Steady-Cam o acompanhar até seu destino. É um prazer entrar no universo criado por Kubrick e suas cenas extremamente trabalhadas e caracterizadas, como a excêntrica loja de fantasias, o apartamento dos protagonistas, e a casa de orgias. Uma direção de arte sensacional.

Kubrick mais do que ninguém sabia o que estava realizando, e a meu ver finalizou a sua carreira com um filme digno de Stanley Kubrick. Praticamente impecável.

A história que inspirou Kubrick a realizar este filme se chama Breve Romance de um Sonho, romance austríaco de 1926 escrito por Arthur Schnitzler.

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De Olhos Bem Fechados (Eyes Wide Shut). EUA/UK 1999. 159 min. Direção de Stanley Kubrick. Roteiro de Stanley Kubrick, Frederic Raphael e Arthur Schnitzler (romance). Com Tom Cruise, Nicole Kidman, Sidney Pollack, Todd Field, Julienne Davis, Marie Richardson.

NC: 9     NP: 9    IMDB: De Olhos Bem Fechados

Por: Ricardo Lubisco

 

 

Cortina de Fumaça

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O ambiente que Cortina de Fumaça transfere ao espectador, é confortante. Como se os personagens fossem velhos conhecidos do bairro, de uma tabacaria (hoje praticamente extintas, mas eu me lembro fortemente de uma tabacaria na esquina da rua em que morava quando tinha uns 6, 7 anos), ou mesmo de alguma história que ouvimos falar. A qualidade maior de Cortina de Fumaça, é isso. É o que o filme nos passa. A naturalidade das ótimas atuações de Harvey Keitel e William Hurt. A beleza com que contam as histórias, que me fizeram esquecer completamente que estavam lendo o roteiro de um filme.

Além da atmosfera, há o cigarro. Não da forma perjorativa e que todos nós fumantes sabemos que existe, que é real, inclusive pontuado em algumas cenas do filme. Mas da forma poética de se acender um cigarro. De tudo que envolve o ato de retirar um cigarro do maço, pegar o isqueiro, e dar a primeira tragada. O filme vai e vêm em anéis de fumaça, criando tudo que se vê na tela. Da simples história dos personagens, aos diálogos mais profundos. Toda a pequena aventura relatada e vivida ali. O brilho nos olhos de um Harvey Keitel em sua atuação mais marcante no cinema, para mim. Tudo muito natural. Tão natural quanto parar para escrever, e acender um cigarro.

Vencedor do Urso de Prata no Festival de Berlim – Prêmio Especial do Júri em 1995.

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Cortina de Fumaça (Smoke). ALE/JAP/EUA 1995. 112 min. Direção de Wayne Wang. Com Harvey Keitel, William Hurt, Harold Perrineau, Forest Whitaker, Ashley Judd e Stockard Channing.

NC: 7     NP: 8     IMDB: Cortina de Fumaça

Por: Ricardo Lubisco