Jennifer Jason Leigh

#65 Synecdoche, New York

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O único filme de direção do excêntrico Charlie Kaufman até então, é uma utopia filmada. Fazendo o que sabe fazer desde a sua estréia em longa-metragens com o brilhante Quero Ser John Malkovich (1999), Kaufman exercita a sua mente criativa na construção e descontrução de uma história em todos os sentidos.

Synecdoche tem um milhão de referências intelectuais, e um roteiro que a meu ver, é montado para depois ser desmontado ao longo do filme, e entre os personagens soltos por entre as cenas, são reconstruídas várias histórias paralelas, sem começo, meio e fim. A forma de narrativa utilizada é aqui é extremamente original e nada convencional, sendo um filme de uma compreensão difícil, e nem um pouco agradável ao público em geral, que com certeza deve ter achado o filme terrível.

O brilhantismo de Synecdoche é puramente a criatividade de Kaufman. E para suportar todas estas idéias e devaneios, ele escalou um dos melhores atores contemporâneos, Philip Seymour Hoffman. Essa junção de talentos transforma o filme, em algo grandioso. Hoffman absorve o personagem para dentro de si, e faz uma interpretação magistral.

A história do filme reflete um pouco a realidade, com uma história fictícia, tão confusa quanto o filme em si. Mas é nessa confusão, que Kaufman deixou uma portinhola aberta para espiarmos um pouco do seu gênio criativo, borbulhando histórias e possibilidades.

Uma poesia conturbada, sobre vida e morte, tempo, relações, família.

Um filme difícil, mas que acaba sendo uma experiência única e enriquecedoramente criativa.

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Synecdoche, New York. EUA 2008. 124 min. Direção e Roteiro de Charlie Kaufman. Com Philip Seymour Hoffman, Catherine Keener, Tom Noonan, Michelle Williams, Jennifer Jason Leigh, Emily Watson.

NC: 8     NP: 9     IMDB: Synecdoche, New York

Por: Ricardo Lubisco

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#61 O Solteirão

Untitled Noah Baumbach Project

Impossível existir um título em português mais cretino para este filme do diretor Noah Baumbach, que no original chama-se apenas Greenberg. Sério, deveria ter uma lei em que fosse proibido destoar a tradução de um título de filme. Muita gente estaria com falência bancária neste momento.

Tirando a maldita tradução, o filme não é tão ruim quanto aparenta. Na verdade ele é agradável, apesar de demorar um pouco de tempo para se acostumar a ele, e aos personagens. Ele não é tão significante quanto ao filme mais conhecido do diretor, A Lula e a Baleia (2005), mas é notável um amadurecimento de Baumbach na maneira de se contar uma história.

O par de atores principais funciona muito bem juntos. Ben Stiller, que já me agrada bastante como ator e que acho bem carismático faz uma interpretação muito boa, e funciona tanto no drama quanto na comédia. E Greta Gerwig é uma boa surpresa.

Noah trabalha muito bem o desenrolar da história, e o roteiro evita os clichês dos filmes de depressão. Até porque o tema é encarnado aqui por um protagonista de meia-idade, ao contrário dos adolescentes sempre retratados. Os jovens aqui inclusive são o oposto da depressão, sempre antenados e felizes, a nata da adolescência burguesa da Califórnia, exceto pela personagem de Greta, uma adolescente de 25 anos que não é uma depressiva, mas é tão problemática quanto o personagem de Ben Stiller.

Um bom filme. Considere a trilha-sonora um bônus!

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O Solteirão (Greenberg). EUA 2010. 107 min. Direção de Noah Baumbach. Roteiro de Noah Baumbach, Jennifer Jason Leigh. Com Ben Stiller, Greta Gerwig, Jennifer Jason Leigh, Rhys Ifans.

NC: 6     NP: 6     IMDB: O Solteirão

Por: Ricardo Lubisco

#42 De Olhos Bem Fechados

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Muita coisa se falou desde que Stanley Kubrick anunciou a produção de De Olhos Bem Fechados, e inevitavelmente segue até hoje como motivo para discussões e argumentações em rodas de amigos cinéfilos, para uma melhor compreensão do último trabalho de um dos melhores cineastas de todos os tempos.

Muitas histórias circulam os bastidores do filme. O tempo que precisou levar para ser completado (algo em torno de três anos), a dureza que Nicole Kidman e Tom Cruise passaram nas mãos de Kubrick (um perfeccionista, muitas vezes taxado de tirano por sua equipe), a reposição de atores por causa da demora nas filmagens (inicialmente, Harvey Keitel e Jennifer Jason Leigh fariam os papéis que acabaram ficando com Sydney Pollack e Marie Richardson), entre outros detalhes.

Há alguns anos atrás, li um livro escrito por Frederic Raphael, co-roteirista do filme ao lado de Kubrick, chamado “De Olhos Bem Abertos”, sobre as conversas que ele tinha com o excêntrico gênio do cinema que envolviam a construção do roteiro do filme. Não me lembro de muitas coisas, mas o que me marcou daquela leitura (aliás, uma ótima maneira de conhecer melhor Kubrick) foi o perfeccionismo e paixão que Stanley Kubrick tinha pelo roteiro que estava construindo e pela maneira como ia fazer isso. Ele analisava cada diálogo, cada cena, cada movimento de câmera, de luz, para criar o melhor ambiente para a história. Se questionava o por quê tal coisa seria importante na cena, se devia mesmo estar lá. Uma leitura reveladora que explica um pouco a demora para realização do filme, e todos os mitos que o envolvem. Na minha opinião, Kubrick não devia explicação alguma sobre isso. Não lembro de existir atualmente um diretor como ele, com tamanho brilho, inteligência, e amor pelo cinema. É uma notícia oficial a de que ele tenha entregue para a Warner Bros a versão final do filme quatro dias antes de morrer, mas eu tenho minhas dúvidas quanto a isso. Kubrick era extremamente perfeccionista, e é claro em alguns momentos do filme um pequeno excesso de tempo, provavelmente descartável nas mãos de Kubrick.

O filme que foi abarrotado de críticas negativas na época de seu lançamento, divide opiniões ainda hoje. Não foi indicado para grandes prêmios e é lembrado por muitas pessoas até hoje como o último trabalho ruim daquele ótimo diretor. Mas a minha opinião é um pouco diferente.

De Olhos Bem Fechados encerra com louvor a carreira de Kubrick. Certamente todos esperavam uma obra-prima do homem que fez 2001 – Uma Odisséia no Espaço, O Iluminado (massacrado na época do lançamento, hoje mais que cultuado), Dr. Fantástico, entre outros. E De Olhos Bem Fechados não é uma obra-prima, não é um clássico do cinema. Mas é um filme tecnicamente de altíssimo nível. Ele tem um roteiro complexo de adaptação, pela maneira como Kubrick o escreveu, mas realiza a direção das cenas magistralmente, como ninguém faria tão bem. É um prazer ver Cruise adentrar algum ambiente e a Steady-Cam o acompanhar até seu destino. É um prazer entrar no universo criado por Kubrick e suas cenas extremamente trabalhadas e caracterizadas, como a excêntrica loja de fantasias, o apartamento dos protagonistas, e a casa de orgias. Uma direção de arte sensacional.

Kubrick mais do que ninguém sabia o que estava realizando, e a meu ver finalizou a sua carreira com um filme digno de Stanley Kubrick. Praticamente impecável.

A história que inspirou Kubrick a realizar este filme se chama Breve Romance de um Sonho, romance austríaco de 1926 escrito por Arthur Schnitzler.

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De Olhos Bem Fechados (Eyes Wide Shut). EUA/UK 1999. 159 min. Direção de Stanley Kubrick. Roteiro de Stanley Kubrick, Frederic Raphael e Arthur Schnitzler (romance). Com Tom Cruise, Nicole Kidman, Sidney Pollack, Todd Field, Julienne Davis, Marie Richardson.

NC: 9     NP: 9    IMDB: De Olhos Bem Fechados

Por: Ricardo Lubisco