Laís Chaffe

sempre é mais grave do que aparenta – parte final

artigo publicado na ZH Centro em 2007:

E a Cinemateca Paulo Amorim?
Laís Chaffe*
A doce vida, O grande ditador, A bela da tarde, Ladrões de bicicleta, Quanto mais quente melhor. Grandes clássicos, daqueles que não dá para perder. Todos já exibidos na Cinemateca Paulo Amorim, que vem oferecendo ao público, há mais de vinte anos, uma programação de qualidade, com ingressos a preços bem inferiores aos das salas comerciais. Pois a sobrevivência dos três cinemas da Casa de Cultura Mario Quintana está ameaçada.
No início do ano, moradores do Centro uniram-se à Associação dos Amigos da Cinemateca Paulo Amorim em uma campanha para salvar os cinemas da Casa de Cultura. O fim do patrocínio do Unibanco, em dezembro de 2006, deflagrou a pior crise da história da Cinemateca, noticiada com destaque, inclusive aqui no ZH Centro. Era preciso que o novo governo tomasse providências imediatas, necessidade expressa em documento com mais de 4 mil assinaturas de apoio. O abaixo-assinado foi entregue à Secretaria de Estado da Cultura (Sedac), mas nenhuma solução concreta foi apresentada até agora. Mais de sete meses depois da posse, a secretária Mônica Leal limita-se a repetir que vem “trabalhando exaustivamente” para, “em breve”, encaminhar “positivamente a questão”.  Quanto à possibilidade de entregar a administração dos cinemas a uma empresa privada, as declarações oficiais são imprecisas e contraditórias.
A Cinemateca é um órgão da Sedac, mas sua Associação de Amigos responde pelos salários e encargos trabalhistas de 10 dos 12 funcionários, além de manter e substituir equipamentos, pagar fornecedores, distribuidores. Tudo isso gera despesas aproximadas de R$ 20 mil mensais. A receita vem da bilheteria, sempre insuficiente. O fim do patrocínio, que cobria pouco mais da metade dos gastos, tornou caótica a situação. Quando o atual governo assumiu, a dívida com o INSS era de R$ 13,5 mil. Hoje passa de R$ 50 mil e cresce R$ 4,5 mil por mês, além de cerca de R$ 30 mil devidos a distribuidores, que precisam ser pagos antes de se contratar novos filmes. Com salários e férias atrasados, funcionários essenciais ameaçam sair. Ou seja, a demora governamental em assumir sua responsabilidade custa caro e complica ainda mais a crise.
Depois de dizer que desconhecia uma proposta da empresa Oficina de Imagens para administrar os cinemas e garantir que, por razões jurídicas, ela não poderia ser aprovada, a Sedac mudou o discurso. No dia 3 de agosto, Mônica Leal admitiu a vereadores a possibilidade de “gestão compartilhada” e mencionou um decreto que permitiria a abertura de licitação para isso. A Cinemateca não precisa nem deve entregar sua administração à iniciativa privada. Precisa é de recursos, com urgência. Mais do que preocupação, a campanha do público e de intelectuais para salvar os cinemas demonstra o reconhecimento ao trabalho já realizado, que deve ter continuidade. E aos que ainda pensam que se trata de falta de dinheiro, sugiro uma olhada nos valores propostos pelo governo para Cultura no Plano Plurianual de Investimentos.

* jornalista, moradora do Centro, integra o Conselho Fiscal da Associação dos Amigos da Cinemateca Paulo Amorim

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Sempre é mais grave do que aparenta – Parte 3

O texto a seguir foi publicado a pedido de Daniele Sallaberry, Coordenadora de Comunicação da Secretaria de Estado da Cultura do Rio Grande do Sul como direito de resposta à Laís Chaffe, colaboradora do Cinema.com.br, que publicou o texto Cinemateca urgente.

CINEMATECA: VERDADE URGENTE

Desde que esta gestão assumiu a pasta da Cultura vem trabalhando na busca de um novo parceiro para a revitalização das salas, pagamentos das dividas e reestruturação dos espaços da Cinemateca Paulo Amorim. Todos conhecem as dificuldades financeiras pelas quais passa o Estado. Muitos acompanharam a saída do patrocínio do UNIBANCO, em janeiro de 2007, devidamente informado em novembro ao responsável pela Cinemateca na administração anterior.

A viabilização do funcionamento das salas é prioridade para a Secretaria de Estado da Cultura (SEDAC) e se está trabalhando exaustivamente para, em breve, encaminharmos positivamente esta questão. Portanto, a preocupação com o fechamento das salas ou até mesmo da perda de seu perfil não tem razão de ser, pois neste momento já podemos afirmar que a parceria financeira que viabilizará a Cinemateca já está assegurada e deverá ser anunciada em breve.

A Cinemateca precisa de um patrocínio mensal de 20 mil reais. Enquanto isso não acontece, a SEDAC tem assumido as despesas da Cinemateca que são passíveis de serem pagas através de empenho.

Desta forma, torna-se pertinente esclarecer algumas informações publicadas no artigo “Cinemateca Urgente”, de autora de Laís Chaffe, publicado no site http://www.cinema.com.br.

Prazos
No dia 25 de junho, a Secretária Mônica Leal esteve reunida com a Associação Profissional de Técnicos Cinematográficos. Na ocasião, questionada sobre o futuro da Cinemateca, a secretária informou que estava previsto para o final daquela semana um encaminhamento positivo em relação as salas. No entanto, infelizmente, isto não aconteceu. Em nenhum momento foram estabelecidos prazos; o que se pode garantir é que a titular da pasta tem trabalhado exaustivamente para que a Cinemateca continue funcionando. Em breve teremos o anúncio da nova parceria.

Orçamento
O Estado até poderia assumir a Cinemateca, como sugere a articulista, mas a manutenção depende de um tipo de despesa pela qual fornecedores não se sujeitam ao pagamento através de empenho (forma do Estado honrar seus compromissos a partir de uma programação prévia). Como deve ser de conhecimento dos profissionais da área de cinema, o nível de investimento que a Cinemateca exige para o seu desenvolvimento e modernização requer investimentos de alto custo; na concepção inicial da Casa de Cultura Mário Quintana, onde já estavam inseridas as salas de cinema, antes mesmo antes do final do projeto, já havia a proposta de um patrocinador. Assim, nunca houve necessidade, até a retirada do patrocínio em novembro de 2006, de planejamento na dotação orçamentária para Cinemateca.

Termo de compromisso
O termo de compromisso referido no artigo não foi apresentado à SEDAC. O que se tem conhecimento é que, em maio, a Oficina de Imagens, sabedora da situação da Cinemateca, levou uma proposta para a Associação dos Amigos do Instituto Estadual do Cinema.

Desde que a Secretária Mônica Leal assumiu a pasta da Cultura buscou um novo parceiro para a revitalização das salas, pagamentos das dívidas e reestruturação dos espaços. O que mais gera perplexidade é que poucos dos, agora, críticos da proposta sequer se importaram com o estado lamentável da Cinemateca, seja em condições físicas de conforto e habitabilidade ou em termos de operacionalização.

Se há preocupações verdadeiramente destituídas de caráter ideológico, deve ser em função da deturpação da informação, para o que então afirmamos: juridicamente a Cinemateca “não será privatizada”; continuará sob a administração do Estado, sob seu domínio e propriedade.

Essas pessoas que provavelmente não têm outra coisa a fazer a não ser contestar tudo ao invés de construir, deveriam refletir sobre a impossibilidade de o Estado continuar a ser paternalista. Temos que ir à luta para novas alternativas.

Toda e qualquer proposta para a manutenção da Cinemateca será recebida pela Secretaria de Estado da Cultura, analisada e encaminhada adequadamente dentro das tramitações oficiais do Estado e compatibilizada com o novo modelo de gestão da cultura desta administração, que exige modernização, enxugamento de defesa e racionalização das atividades buscando sempre fazer mais com menos.

Perfil da programação
Quanto à preocupação de uma possível mudança do perfil da programação, esta não é interesse da SEDAC; também está assegurado no Decreto que atribui às competências das instituições.

Nomeações
Todos os diretores que responderam interinamente pelo cargo estavam amplamente respaldados pela Secretária de Cultura para agir de acordo com as necessidades e não houve qualquer restrição para que desempenhassem suas atividades. O anúncio das nomeações ocorreu na última semana, visto que houve um trabalho exaustivo na busca de profissionais qualificados com objetivo de se constituir uma equipe técnica e que tivesse um perfil empreendedor e inovador, identificado com o novo jeito de governar da administração Yeda Crusius.

Afastamento das funções
Todos conhecem as dificuldades financeiras por que passa o Estado, e o enxugamento praticado nesta gestão de 20% dos cargos e 30% dos custos. A Secretaria de Estado da Cultura, possui grande número de instituições vinculadas e, em razão dos cortes, não tem quadro de pessoal para colocar um profissional de jornalismo, em cada instituição. Por isso foi determinado que a atuação da Assessoria de Comunicação seria de forma centralizada, ou seja, todos os jornalistas da SEDAC foram chamados e cada um deles assumiu até quatro instituições. A articulista tinha conhecimento desta centralização desde fevereiro, no entanto o afastamento dos cinemas ocorreu por razão de descumprimento dos deveres do servidor público e não por perseguição, como mencionado.

ASSESSORIA DE COMUNICAÇÃO SOCIAL
SECRETARIA DE ESTADO DA CULTURA

 
Data: 19/07/2007

Sempre é mais grave do que aparenta – Parte 2

Texto de autoria de Laís Chaffe, datado de 2007:

Boas notícias para a Cinemateca Paulo Amorim

            A secretária de Estado da Cultura, Mônica Leal, aproveitou as câmeras e luzes do Festival de Cinema de Gramado para dar boas notícias a todos que se preocupavam com a crise na Cinemateca Paulo Amorim: o Banrisul vai patrocinar as três salas de cinema da Casa de Cultura Mario Quintana. Um patrocínio nos moldes do anterior (com o Unibanco), sem intervenções na programação nem em aspectos administrativos. A saída atende aos anseios de cineastas e suas entidades representativas, moradores do Centro, membros da Associação dos Amigos da Cinemateca, funcionários, público em geral. E sinaliza uma disposição para o diálogo, fundamental para planejarmos o futuro dos cinemas.

            Vou ficar devendo aos leitores do Cinema.com algumas definições importantes que ainda não foram divulgadas oficialmente, podem me cobrar mais tarde. O patrocínio de R$ 30 mil não é exclusivo para a Cinemateca: parte desses recursos vai ser destinada a outras atividades da Casa de Cultura Mario Quintana. É importante que a Secretaria de Estado da Cultura (Sedac) informe qual o valor exato a ser repassado à Associação dos Amigos, como será feito esse repasse, quando e por quanto tempo. Os cerca de R$ 12 mil do patrocínio anterior já não eram suficientes para as despesas. Com a dívida acumulada nesses meses de crise, será necessário um aporte maior, principalmente nos primeiros tempos.

            Para esclarecer esses pontos, na condição de integrante do Conselho Fiscal da Associação dos Amigos, pedi novamente ao presidente da entidade, João Carlos Goldani, que solicite reunião com a Sedac. Sigo defendendo a chamada pública de novos sócios, como previsto no estatuto – hoje somos apenas nove, todos integrantes da diretoria.

            Entre as boas notícias, vale destacar ainda que o patrocínio do Banrisul é direto, sem utilização de leis de incentivo fiscal, e, principalmente, que a Sedac descartou totalmente a possibilidade de gestão compartilhada com outras empresas. Cinéfilos têm olhares atentos e seguirão acompanhando essa história. Aliviados e conscientes de que não se trata de um final feliz, e sim em aberto.