Lars Von Trier

Ninfomaníaca – Vol. I e Vol. II

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Vol. I

Ninfomaníaca foi uma grande estratégia de marketing do diretor dinamarquês Lars Von Trier. Somente isso e mais nada. Eu não vou dizer que é pretensioso, pois não há pretensão alguma a não ser essa aura polêmica instaurada no filme.

Desde o momento em que foi anunciado o conteúdo do filme, milhares de vozes na internet profetizavam um longa-metragem revolucionário e chocante, que mostraria a vida de uma ninfomaníaca desde a sua infância até a velhice. E só por isso a curiosidade tomou conta de todos, ainda mais sabendo que o filme não teria pudores com o público e mostraria cenas de sexo explícito. Apenas isso bastou para transformar Ninfomaníaca no filme mais aguardado do ano passado e ter gerado milhares de comentários a favor e contra o diretor. Uma estratégia de marketing genial nos dias de hoje, em que as notícias veiculadas na internet tomam proporções gigantescas, dependendo da maneira com que são processadas, e claro, do seu conteúdo.

Não sou um daqueles radicais que dizem aos quatro cantos que o cinema de Von Trier é para pseudo-intelectuais que adoram dizer que entenderam filmes de arte quando ninguém mais entendeu. Tenho lembranças muito boas de Dançando no Escuro (2000) e Dogville (2003), filmes que me surpreenderam por sua frieza e qualidade. A questão aqui em Ninfomaníaca – Vol. I, é que sobra frieza e falta muita qualidade.

O principal defeito do filme é a maneira com que o diretor resolveu contar a história da sua ninfomaníaca, que não consegue conversar sem contar as suas experiências sexuais, por mais que o outro personagem (Stellan Skarsgard) aborde outros assuntos. É como conversar com uma parede, aonde você não escuta e só fala. Outra coisa irritante no filme, é como todas as metáforas que o personagem de Stellan diz para a ninfo, são projetadas na tela em imagens. Um didatismo desnecessário, que faz realmente parecer que o diretor quer ensinar algo em uma aula de faculdade.

O filme tem muitos momentos ruins, mas quando escorre uma “lágrima” entre as pernas da personagem, tive a impressão de ter ouvido milhares de ecos nos meus ouvidos com a expressão: pseudo-intelectual.

Ninfomaníaca – Vol. I foi lançado com um status que não lhe pertence: a de filme mais esperado do ano e de obra inteligente compreendida por poucos. Sobra status e falta qualidade. Parece, de fato, que Lars Von Trier assumiu a postura de pseudo-intelectual que tanto tentaram lhe impor.

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Vol. II

O segundo volume da obra de Lars Von Trier é tudo o que o primeiro não foi.

Esqueça o ritmo monótono e o didatismo insuportável. Da metade para o final o diretor conseguiu realizar um filme muito interessante e válido. Ele assumiu outra postura, lembrando o poético Lars Von Trier de Anticristo (um alô para a cena da criança chegando perto do parapeito). O que faz uma enorme diferença no filme, fazendo com que uma metade seja completamente diferente da outra. Nós vemos um lado muito mais humano da personagem principal, assim como conhecemos muito mais a sua personalidade. Como um todo, o filme ganha uma perspetiva diferente. O questionamento que Seligman faz a Joe, sobre como a sociedade a veria se ela fosse homem, é genial. É justamente o que questionamos nos dias de hoje ao procurar o machismo na sociedade, e infelizmente, é exatamente como ela é. Uma sociedade consumida pela burrice.

Muita coisa o diretor poderia ter consertado na edição, cortando muitas cenas desnecessárias na primeira parte do filme, e que não só poderiam deixar de dividi-lo, como também torná-lo muito mais interessante. Mas, ele deve ter os seus motivos para ter aceitado esta divisão, na minha opinião, o que tornou o filme menos do que ele poderia ser.

Talvez quando a versão do diretor for comercializada as perspectivas sobre o filme sejam outras, mas por enquanto, Ninfomaníaca foi muito marketing para pouco cinema.

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Ninfomaníaca Vol. I (Nymphomaniac Vol. I). DIN/FRA/ALE/BEL/UK 2013. 118 min. Direção de Lars Von Trier. Roteiro de Lars Von Trier. Com Charlotte Gainsbourg, Stellan Skarsgard, Stacy Martin, Shia LeBeouf, Christian Slater, Uma Thurman.

VOL. 1     NC: 5     NP: 3     IMDB: Ninfomaníaca Vol. I

VOL. 2     NC: 7     NP: 6     IMDB: Ninfomaníaca Vol. II

Por: Ricardo Lubisco

Cotação dos Críticos Vol. I:

Francisco Russo (Adoro Cinema) – ♠♠♠♠½

Pablo Villaça (Cinema em Cena) – ♠♠♠♠

Marcelo Hessel (Omelete) – ♠♠

Chico Fireman (Filmes do Chico) – ♠♠

Michel Simões (Toca do Cinéfilo) – ♠♠

Adriano de Oliveira (Cine Revista) – ♠♠

Cotação dos Críticos Vol. II:

Lucas Salgado (Adoro Cinema) – ♠♠♠♠

Pablo Villaça (Cinema em Cena) – ♠♠♠♠

Michel Simões (Toca do Cinéfilo) – ♠♠½

Marcelo Hessel (Omelete) – ♠♠

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Especial Thomas Vinterberg – Querida Wendy

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Querida Wendy é o trabalho mais controverso de Thomas Vinterberg até aqui. Apenas um ano após a realização de Dogma do Amor, o diretor apresentou um filme violento e que, ao mesmo tempo que não recrimina o uso de armas de fogo, também não as incentiva. A polêmica em torno do filme certamente foi muito grande por todos os eventos que já ocorreram nos Estados Unidos relacionados a jovens portando armas. A história do filme inclusive se passa lá.

Escrito pelo sempre parceiro Lars Von Trier (a esta altura, Von Trier já havia ganho muito mais notoriedade no cinema mundial do que Vinterberg), Querida Wendy têm muitos resquícios de Dogville, filme de Von Trier de 2003. Para quem já o assistiu, a alusão fica evidente na cena em que é mostrado o mapa da cidade. Apesar das semelhanças, é possível notar a mão de Vinterberg na obra. No roteiro original de Von Trier, o elenco principal de jovens estava na casa dos 20 anos para cima. Vinterberg então optou por torná-los mais jovens, na casa dos 16, o que segundo Von Trier foi uma idéia brilhante.

Fora a estranha obsessão por armas e algumas cenas em particular, a obra não chama tanta atenção. Tem uma ótima trilha-sonora embalada pela banda sessentista The Zombies, grandes atuações, encabeçadas pelo sempre bom Jamie Bell (Billy Elliot), além de uma atmosfera agradável. mas não é o tipo de filme que se têm como referência do cinema de Vinterberg.

Essa parte da carreira do cineasta Dinamarquês é interessante, pois aqui creio eu que ele não poderia ser encaixado em nenhum tipo de característica. Opostamente ao seu colega fundador de Dogma 95, que sempre gerou grandes discussões sobre sua obra. Querida Wendy é sim um filme polêmico por tratar de um assunto delicado para os americanos (porte de armas, jovens com acesso à armas, etc) mas surpreende por essa liberdade em tocar no assunto sem se penalizar ou fazer qualquer tipo de propaganda. Permanecer neutro quanto a isso e realizar um longa-metragem com cenas bem interessantes é um mérito. Mas com certeza, algo que sempre irá se esperar de Thomas Vinterberg, Mesmo que não faça obras-primas, é inegável o brilhantismo de algumas cenas de seus filmes, o que certamente o deixa em um lugar privilegiado no cinema.

Querida Wendy não é um filme imperdível. Mas quando tiver um tempo, assista. Assim como na história do longa, o filme no fundo parece apenas uma brincadeira entre amigos.

No próximo Especial Thomas Vinterberg, a volta à origem dinamarquesa com Quando um Homem Volta para Casa.

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Querida Wendy (Dear Wendy). ITA/EUA/HOL/ESP/DIN/FRA/ALE/UK 2004. 105 min. Direção de Thomas Vinterberg. Com Jamie Bell, Bill Pullman, Michael Angarano, Danso Gordon, Chris Owen, Alison Pill.

NC: 5     NP: 5     IMDB: Querida Wendy

Por: Ricardo Lubisco