Círculo de Paixões

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Foi uma surpresa agradável encontrar este filme após dar uma zapeada pelas opções que o Netflix me oferecia ontem pela manhã. Ver Joaquin Phoenix e Liv Tyler contracenando juntos em um filme de 1997 despertou a minha curiosidade, e deixar o sono um pouco de lado valeu muito a pena.

Ignore o título brasileiro preguiçoso, este não é um filme apenas sobre paixões, mas sobre a vida de uma maneira geral. É sobre a passagem do tempo na vida de uma pequena família do interior dos Estados Unidos, sobre as paixões da adolescência que perduram com o passar dos anos, e na dificuldade de escolher um caminho e deixar todo o seu mundo para trás.

O diretor do filme é Pat O’Connor, mais conhecido por ter realizado Doce Novembro (2001). Ele realiza um trabalho muito simples aqui, mas memorável. Joaquin Phoenix e Liv Tyler, como já mencionados anteriormente, transformam em arte uma pequena história do filme. No elenco ainda estão Jennifer Connelly, estonteante, e Billy Crudup desempenhando uma grande atuação.

Círculo de Paixões é um filme charmoso e que prende a atenção por contar muito bem uma história, por não se prender em um romance barato e explorar questões familiares de uma maneira sutil e profunda. Valeu a pena para mim pelo menos, que deixei de lado um hiato de 5 meses para vir aqui falar sobre ele.

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Círculo de Paixões (Inventing the Abbotts). EUA 1997. Direção de Pat O’Connor. Com Joaquin Phoenix, Liv Tyler, Billy Crudup, Will Patton, Kathy Baker, Jennifer Connelly, Joanna Going, Barbara Williams.

NC: 7     NP: 7     IMDB: Círculo de Paixões 

Por: Ricardo Lubisco

The Crash Reel

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Um dos meus filmes preferidos de todos os tempos, é o documentário O Equilibrista (2009), que conta a história de Phillippe Petit e a sua travessia entre as torres gêmeas em uma corda bamba. Mas o filme não é apenas sobre isso, ele fala sobre a vida e sensações, coisas que são impossíveis colocar em palavras. Este é um trecho do comentário que fiz quando assisti à O Equilibrista:

“Se existem coisas no mundo em que vivemos que não tem explicação, uma delas, é o que se passa em nossas mentes quando vivenciamos algo único. É o que sentimos quando algo nos faz bem, quando algo significa para nós diferentemente do que significa para outra pessoa. Esta breve descrição acredito que sirva para a Arte. Seja ela uma pintura, seja um filme, um desenho, uma escultura, um recorte. Até mesmo, andar em uma corda bamba. Arte é aquilo que fazemos de melhor, e não somente isso, somos criativos ao ponto de fazer determinada coisa das mais diferentes maneiras.”

Tudo isto que falei serve muito bem para contar a história do snowboarder americano Kevin Pearce, um talento raro e único neste esporte, que sofreu um grave acidente em 2009 e quase morreu. O documentário acompanha a vida de Pearce desde quando era pequeno, seu início no esporte, a sua relação com familiares e amigos, a sua dedicação e evolução no snowboard, o acidente e a sua recuperação. É um relato completo de sua história, o que de fato é muito interessante e que nos dá a oportunidade de conhecer a pessoa Kevin Pearce, e não só o esportista.

O resultado deste belo trabalho da diretora Lucy Walker (Lixo Extraordinário) não só mostra a brilhante história de Pearce, como abre fortemente uma discussão sobre os limites do esporte como competição. É difícil não se impressionar e nem ficar emocionado com a história de superação desse garoto, e do amadurecimento dele após o acidente, assim como a importância de ser ter o apoio da família nos momentos mais difíceis.

Ver um artista não poder realizar a sua arte é um sentimento muito estranho.

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The Crash Reel. EUA 2013. 108 min. Direção de Lucy Walker. Roteiro de Pedro Kos e Lucy Walker. Com Kevin Pearce, Shaun White.

NC: 8      NP: 9     IMDB: The Crash Reel

Por: Ricardo Lubisco

Ninfomaníaca – Vol. I e Vol. II

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Vol. I

Ninfomaníaca foi uma grande estratégia de marketing do diretor dinamarquês Lars Von Trier. Somente isso e mais nada. Eu não vou dizer que é pretensioso, pois não há pretensão alguma a não ser essa aura polêmica instaurada no filme.

Desde o momento em que foi anunciado o conteúdo do filme, milhares de vozes na internet profetizavam um longa-metragem revolucionário e chocante, que mostraria a vida de uma ninfomaníaca desde a sua infância até a velhice. E só por isso a curiosidade tomou conta de todos, ainda mais sabendo que o filme não teria pudores com o público e mostraria cenas de sexo explícito. Apenas isso bastou para transformar Ninfomaníaca no filme mais aguardado do ano passado e ter gerado milhares de comentários a favor e contra o diretor. Uma estratégia de marketing genial nos dias de hoje, em que as notícias veiculadas na internet tomam proporções gigantescas, dependendo da maneira com que são processadas, e claro, do seu conteúdo.

Não sou um daqueles radicais que dizem aos quatro cantos que o cinema de Von Trier é para pseudo-intelectuais que adoram dizer que entenderam filmes de arte quando ninguém mais entendeu. Tenho lembranças muito boas de Dançando no Escuro (2000) e Dogville (2003), filmes que me surpreenderam por sua frieza e qualidade. A questão aqui em Ninfomaníaca – Vol. I, é que sobra frieza e falta muita qualidade.

O principal defeito do filme é a maneira com que o diretor resolveu contar a história da sua ninfomaníaca, que não consegue conversar sem contar as suas experiências sexuais, por mais que o outro personagem (Stellan Skarsgard) aborde outros assuntos. É como conversar com uma parede, aonde você não escuta e só fala. Outra coisa irritante no filme, é como todas as metáforas que o personagem de Stellan diz para a ninfo, são projetadas na tela em imagens. Um didatismo desnecessário, que faz realmente parecer que o diretor quer ensinar algo em uma aula de faculdade.

O filme tem muitos momentos ruins, mas quando escorre uma “lágrima” entre as pernas da personagem, tive a impressão de ter ouvido milhares de ecos nos meus ouvidos com a expressão: pseudo-intelectual.

Ninfomaníaca – Vol. I foi lançado com um status que não lhe pertence: a de filme mais esperado do ano e de obra inteligente compreendida por poucos. Sobra status e falta qualidade. Parece, de fato, que Lars Von Trier assumiu a postura de pseudo-intelectual que tanto tentaram lhe impor.

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Vol. II

O segundo volume da obra de Lars Von Trier é tudo o que o primeiro não foi.

Esqueça o ritmo monótono e o didatismo insuportável. Da metade para o final o diretor conseguiu realizar um filme muito interessante e válido. Ele assumiu outra postura, lembrando o poético Lars Von Trier de Anticristo (um alô para a cena da criança chegando perto do parapeito). O que faz uma enorme diferença no filme, fazendo com que uma metade seja completamente diferente da outra. Nós vemos um lado muito mais humano da personagem principal, assim como conhecemos muito mais a sua personalidade. Como um todo, o filme ganha uma perspetiva diferente. O questionamento que Seligman faz a Joe, sobre como a sociedade a veria se ela fosse homem, é genial. É justamente o que questionamos nos dias de hoje ao procurar o machismo na sociedade, e infelizmente, é exatamente como ela é. Uma sociedade consumida pela burrice.

Muita coisa o diretor poderia ter consertado na edição, cortando muitas cenas desnecessárias na primeira parte do filme, e que não só poderiam deixar de dividi-lo, como também torná-lo muito mais interessante. Mas, ele deve ter os seus motivos para ter aceitado esta divisão, na minha opinião, o que tornou o filme menos do que ele poderia ser.

Talvez quando a versão do diretor for comercializada as perspectivas sobre o filme sejam outras, mas por enquanto, Ninfomaníaca foi muito marketing para pouco cinema.

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Ninfomaníaca Vol. I (Nymphomaniac Vol. I). DIN/FRA/ALE/BEL/UK 2013. 118 min. Direção de Lars Von Trier. Roteiro de Lars Von Trier. Com Charlotte Gainsbourg, Stellan Skarsgard, Stacy Martin, Shia LeBeouf, Christian Slater, Uma Thurman.

VOL. 1     NC: 5     NP: 3     IMDB: Ninfomaníaca Vol. I

VOL. 2     NC: 7     NP: 6     IMDB: Ninfomaníaca Vol. II

Por: Ricardo Lubisco

Cotação dos Críticos Vol. I:

Francisco Russo (Adoro Cinema) – ♠♠♠♠½

Pablo Villaça (Cinema em Cena) – ♠♠♠♠

Marcelo Hessel (Omelete) – ♠♠

Chico Fireman (Filmes do Chico) – ♠♠

Michel Simões (Toca do Cinéfilo) – ♠♠

Adriano de Oliveira (Cine Revista) – ♠♠

Cotação dos Críticos Vol. II:

Lucas Salgado (Adoro Cinema) – ♠♠♠♠

Pablo Villaça (Cinema em Cena) – ♠♠♠♠

Michel Simões (Toca do Cinéfilo) – ♠♠½

Marcelo Hessel (Omelete) – ♠♠

Trapaça

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Antes de tudo, é preciso dizer que o diretor David O. Russel realizou um belo trabalho neste filme. Li muitas críticas após assistir ao filme, e em todas havia algo relacionando-o ao cinema de Martin Scorsese (como reverência ou cópia), o que eu acho de certa forma um exagero.

Scorsese é um diretor clássico, foi um dos pioneiros de sua geração ao fazer cinema de qualidade nos Estados Unidos, influenciado pela nouvelle vague. Um exemplo de sua qualidade de criador, é a cena final de Taxi Driver (76) com um ângulo de câmera diferenciado. David O. Russel a meu ver, faz um tipo de cinema completamente diferente do de Scorsese. Ele não se importa tanto com o roteiro do filme, dando liberdade para os seus atores improvisarem o quanto for necessário, e desta forma criar grandes personagens. Qualidade inegável de Russel, reconhecida com as indicações a Melhor Ator/Atriz em todas as categorias do Oscar neste ano, e no ano passado também.

Em Trapaça, são os atores que tornam o filme mais atrativo em todos os sentidos. É por um Christian Bale (mais uma vez com alterações de peso) espetacular em cena, por Amy Adams roubando a cena em quase todos os momentos, por um Bradley Cooper motivadasso a construir um personagem sagaz ao extremo, e por uma pequena mas elegante participação de Robert De Niro, que Trapaça merece ser visto e saboreado sem comparações com Scorsese ou qualquer outro diretor, e sim com um certo reconhecimento pela competência de Russel em dirigir um elenco tão forte como esse e conseguir extrair os melhores resultados possíveis.

Claro que nem tudo é maravilhoso e o filme, sim, é um pouco arrastado e pretensioso. Existem algumas cenas que poderiam facilmente ter sido removidas durante a edição final e deixado o filme mais dinâmico. A cena com a Jennifer Lawrence surtando dentro de casa ao som de “Live and Let Die” é completamente descartável e por instantes transformou o filme em um clipe da MTV. A atuação de Lawrence, inclusive, não surpreende em momento algum. É a pior entre todos os atores.

Fica a sensação de que David O. Russel poderia ter construído um filme emblemático e memorável, mas não é o que acontece aqui. Ainda assim, é uma obra interessante e que merece uma atenção maior do que apenas a mera comparação ao cinema de Scorsese.

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Trapaça (American Hustle). EUA 2013. 138 min. Direção de David O. Russel. Roteiro de David O. Russel e Eric Warren Singer. Com Amy Adams, Christian Bale, Jennifer Lawrence, Bradley Cooper, Jeremy Renner, Robert De Niro.

NC: 7     NP: 7     IMDB: Trapaça

Por: Ricardo Lubisco

Cotação dos Críticos: 

Marcelo Hessel (Omelete) – ♠♠♠

Lucas Salgado (Adoro Cinema) – ♠♠♠♠

Matheus Pannebecker (Cinema e Argumento) – 6,0

Adriano de Oliveira (Cine Revista) – ♠♠

Michel Simões (Toca do Cinéfilo) – ♠♠½

Pablo Villaça (Cinema em Cena) – ♠♠♠♠

Chico Fireman (Filmes do Chico) – ♠♠

Rubens Ewald Filho (Rubens Ewald Filho) – ♠♠♠½

Walt nos Bastidores de Mary Poppins

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Assisti à Walt nos Bastidores de Mary Poppins, filme que entrou em cartaz recentemente nos cinemas do país, e que recebeu uma recepção bem morna da crítica especializada por não retratar com mais realidade a conturbada relação do poderoso Walt Disney com a escritora P. L. Travers, criadora da famosa babá voadora, e que roteirizou o musical de 1964, tema deste filme.

O problema deste longa, dirigido por John Lee Hancock (Um Sonho Possível), é a passividade em contar uma história que poderia render um grande filme. O que na verdade não é uma grande surpresa quando foi a própria Disney que produziu o filme, certamente com uma ideia de celebração dos 50 anos do clássico de 1964.

Então aqui temos Tom Hanks, com uma atuação mediana encarnando Walt Disney, e mostrando alguns detalhes pessoais e interessantes do criador do Mickey Mouse, como o hábito de fumar escondido de todos. Temos Paul Giamatti, em um pequeno papel, mas que se torna um dos melhores personagens do filme devido a grandeza do ator, que nos brinda há tempos com ótimos momentos no cinema. Temos Jason Schwartzman, como um dos irmãos Sherman, responsáveis pela premiada trilha-sonora do filme original, que está de certa forma ofuscado (o famoso não fede, nem cheira) e não faz jus as ótimas atuações que estamos acostumados a ver nos filmes de Wes Anderson. A principal atuação vem de Emma Thompson, que interpreta de maneira excelente a escritora mal humorada e cheia de manias, tema principal do filme.

A história que envolve os acontecimentos da vida pessoal da escritora com a criação da personagem Mary Poppins, assim como a sua relação intransigente de trabalho durante a construção do musical de 64, erra feio ao misturar flashbacks da infância de Travers na história principal do filme, que é a relação dela com Disney, e com o trabalho de roteirizar a sua personagem para o cinema com os funcionários do estúdio. São momentos descartáveis em que o filme perde o espectador, para tentar dar sentido ao comportamento da escritora, o que torna o filme demasiado longo e cansativo. Falta uma instigação de querer fazer cinema de verdade, de se aprofundar na história e nos personagens. É um filme sobre a escritora P. L. Travers, mas falta muita personalidade de P. L. Travers para o filme ser bom.

Contudo, é uma boa opção para os cinéfilos curiosos com a criação do clássico musical, e para conferir a ótima atuação de Emma Thompson. Fora isso, parece ser um desperdício de uma boa história a ser contada, pois John Lee Hancock criou um filme padrão Disney, para a Disney.

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Walt nos Bastidores de Mary Poppins (Saving Mr. Banks). EUA/UK/AUS 2013. 125 min. Direção de John Lee Hancock. Roteiro de Kelly Marcel e Sue Smith. Com Emma Thompson, Tom Hanks, Colin Farrel, Paul Giamatti, Jason Schwartzman.

NC: 5     NP: 6     IMDB: Walt nos Bastidores de Mary Poppins

Por: Ricardo Lubisco

Cotação dos Críticos:

Natália Bridi (Omelete) – ♠♠♠

Francisco Russo (Adoro Cinema) – ♠♠♠

Michel Simões (Toca do Cinéfilo) – ♠♠½

Pablo Villaça (Cinema em Cena) – 

Maldito Futebol Clube

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Maldito Futebol Clube talvez seja um filme desconhecido do grande público (acredito que não tenha sido lançado nos cinemas por aqui), dirigido pelo premiado Tom Hopper de O Discurso do Rei (2010). Ele é baseado na biografia do famoso técnico inglês Brian Clough, durante a década de 60 e 70.

O mais interessante aqui é o ótimo realizado por Hopper e toda  a equipe técnica que trabalhou no filme. A reprodução das cidades inglesas dos anos 60 e 70, não deve ter sido coisa fácil, assim como a excelente edição que mistura imagens reais desde o começo do filme. Outro destaque são as atuações de Michael Sheen e Timothy Spall, protagonistas exemplares o tempo inteiro.

A simplicidade aparente é resultado da ótima qualidade técnica, e a preocupação de realizar uma cine biografia a altura da personalidade que foi Brian Clough. É um filme sobre futebol, mas que pode ser visto até por quem não curte muito o esporte, pois são poucos os momentos que realmente enfatizam a prática, abraçando muito mais os bastidores e as relações pessoais e rivalidades do treinador.

Imperdível para aqueles que gostam de uma boa história verídica, ou de um bom filme inglês. Aqui, Tom Hopper despeja todo o talento que o levaria a vencer o Oscar no ano seguinte com O Discurso do Rei.

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Maldito Futebol Clube (The Damned United). UK 2009. 98 min. Direção de Tom Hopper. Roteiro de Peter Morgan, David Peace (romance). Com Michael Sheen, Timothy Spall, Colm Meaney, Jim Broadbent, Stephen Graham.

NC: 7     NP: 7     IMDB: Maldito Futebol Clube  

Por: Ricardo Lubisco